fbpx

Colocar os sentimentos no papel é um poderoso processo terapêutico que pode ajudar na solução de problemas represados

“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”, escreveu o poeta Fernando Pessoa. Mais do que uma forma de contar histórias, a escrita também pode ser um meio de buscar autoconhecimento e entender sentimentos. Por isso, o expressive writing, ou a escrita terapêutica, vem ganhando cada vez mais espaço nos tratamentos emocionais. A terapia consiste em escrever livremente sobre os sentimentos, sem se preocupar com estrutura do texto, rimas ou regras gramaticais. O intuito é de que ela ocorra de maneira natural, sem programar o que será exposto.

Esse tipo de escrita pode ser usada em momentos de estresse, em que se busca alívio para reorganizar pensamentos e expressar sentimentos. Também tem sido adotada em pessoas com doenças potencialmente estressantes. Uma pesquisa da Universidade de Baylor, nos Estados Unidos, comprovou que pacientes com câncer tiveram aceleração na recuperação quando passaram a escrever sobre as emoções relacionadas à doença.

A princípio, escrever traz alívio, assim como a fala, mesmo que não tenha um leitor direcionado. É uma maneira de colocar para fora o que dói e incomoda, sem medo e sem filtros, sem receio de ser julgado ou mal interpretado por pessoas do convívio. Os exercícios de escrita mais comuns são os de desabafo, diário e organização das ideias. Mas existem uma gama de possibilidades, que vão depender da pessoa e do objetivo dela. O segredo é começar. E, para que a terapia tenha resultados, é necessário ter disciplina, escrever todos os dias e sempre voltar dias depois para avaliar como os sentimentos escritos vêm se desenvolvendo.

Escrever sobre o que?

Sobre o conteúdo, ele precisa ser focado no sentimento e não na situação. O paciente-escritor deve pôr no papel o que não pode ser observado. Por exemplo, escrever que ‘sentiu muita raiva’, em vez de ‘gritei muito’, ou que sentiu ‘muita tristeza’, em vez de ‘chorou’. Derramar os sentimentos no papel ou no computador pode ajudar a colocar os pensamentos em perspectiva e, assim, superar as dificuldades.

Já para o arquivista Gustavo Maia, a escrita representa uma espécie de catarse. E foi essa técnica que o ajudou a superar crises de ansiedade aos 19 anos. Foi assustador no início. “Uma vez que você coloca no papel, dá a sensação de reconhecimento (dos problemas). Quando você reconhece, passa a lidar melhor com eles”, conta o jovem. O que começou por indicação da chefe ajudou a mudar a vida dele ao longo de um ano. “A escrita é uma maneira interessante de documentar as mudanças, os eventos pelos quais a gente está passando”. Maia alerta, porém, que a terapia literária agrega, mas não substituiu os tratamentos convencionais.

Quando escrever?

Da mesma forma que Maia, a aluna de publicidade e propaganda da UnB Izabella Beck sente que a escrita é terapêutica porque a coloca no papel de observadora. “Quando é com a gente, ajuda a ver (a situação) melhor”, analisa a jovem, que escreve desde os 12 anos. Para ela, o melhor horário para criar é antes de dormir. “Eu queria falar sobre as coisas que estavam acontecendo sem ter que contar para alguém”, continua Izabella. Maia vai além e sente que a escrita faz parte de um processo individual. “Pelo fato de a escrita ser uma atitude quase solitária, eu acho que não agregaria compartilhar”, comenta ele.

 

 

* do Correio Brasiliense