3 conselhos

Se a gente pudesse dar 3 conselhos pra vocês, UM seria: assistam e esta palestra:

[Mas antes dispam-se de preconceitos como “é autoajuda”, porque não, não é; “fórmula pronta”, porque não, também não é. Obriga a gente a pensar. Sempre temos algo pra apreender daí. Posologia: assistir uma vez a cada ano, pelo menos, mas lembrar – não sem refletir – disso tudo que o Marco Aurélio diz diariamente.]

;)

 

Lima Barreto, uma voz que nasceu negra na literatura

o topo da ficha da primeira internação de Affonso de Henriques de Lima Barreto no Hospício Nacional, o escritor é identificado como branco. O ano era 1914, o diagnóstico alcoolismo, a cidade Rio de Janeiro. Logo abaixo do cabeçalho, contudo, uma foto em sépia desmente a informação sobre sua cor. Assim como um sem número de intelectuais e homens públicos brasileiros, que eram negros, mas foram repetidamente retratados como brancos, Lima, ainda em vida, foi tomado pelo que não era. No seu caso, contudo, o “branqueamento” é ainda mais absurdo, pois ser negro, no último país a abolir a escravidão no mundo, foi questão central da vida e obra do escritor brasileiro.

O tema racial, não por acaso, é também o de maior relevância na biografia Lima Barreto: Triste Visionário, que Schwarcz lança em 10 de julho, pela Companhia das Letras. “O Lima é um personagem bem interpretado. Toda a leva de pesquisadores que seguiram o Francisco de Assis Barbosa, seu primeiro biógrafo e difusor de sua obra, é excelente. A pergunta que eu fiz, que não se tinha feito muito ainda, é sobre a questão racial”. Neto de escravos e filho de pais livres, nascido no dia 13 de maio de 1881, na mesma data em que sete anos depois a lei áurea colocaria um fim na escravidão, Lima abordou o tema a partir de sua própria experiência. Sua obra, nesse sentido, é extremamente autobiográfica.

Se quando adolescente o escritor cursou a Escola Politécnica e se descobriu como único negro de uma turma composta por filhos brancos da elite, sentindo toda a rejeição que poderia haver na situação; em Memórias do Escrivão Isaías Caminha, de 1909, seu romance de estreia, fez o personagem Isaías, filho bastardo de um padre com uma escrava, passar por uma infância em que recebeu educação regular, para, no futuro, descobrir que sua cor seria uma barreira para que ele galgasse posições. Assim como Isaías, Lima também teve um desenvolvimento relativamente estável na infância para descobrir na adolescência e início da juventude o deslocamento que sua condição social e sua cor lhe imporiam.

Comumente retratado como um escritor pobre, Lima teve certa estabilidade familiar durante boa parte de sua infância. O pai, João Henriques, e a mãe, Amália Augusta, eram ambiciosos e tinham boas relações com a elite. Tiveram educação e eram livres. Enquanto ele teve uma carreira promissora como tipógrafo, ela era professora escolar. As coisas começaram a mudar quando Amália morreu de tuberculose e João perdeu o emprego. Em 1902, ele, depois de uma série de episódios de esgotamento emocional, acabou perdendo também a razão, o que levou Lima a abandonar a faculdade para sustentar a casa.

Capa da biografia de Lima Barreto
Capa da biografia de Lima Barreto DIVULGAÇÃO

Aos 21 anos, o escritor virou arrimo da família, constituída por três irmãos, pai e alguns agregados. Trabalhando como funcionário público e, ao mesmo tempo, tocando seu projeto literário com colaborações rotineiras em jornais e revistas, Lima encontrou desde cedo na veia crítica sua principal marca. Se denunciava o racismo, também direcionava ataques contra a República, a imprensa e qualquer coisa que cheirasse a estrangeirismos. “Há uma história de comparar Lima Barreto com Machado de Assis, mas é uma injustiça. Eles tinham projetos completamente diferentes, enquanto Machado era um universalista, Lima era um escritor engajado, que denunciava mazelas e criticava o que via em seu cotidiano”, diz Schwarcz.

Olhando para seu tempo, Lima foi, por exemplo, um critico feroz da reforma do centro do Rio, empreendida pelo prefeito engenheiro Pereira Passos. A época marca o início da abertura de grandes avenidas na cidade e da subsequente expulsão de populações pobres que viviam em cortiços para lugares cada vez mais longínquos. Segundo Schwarcz, “a visão que ele tinha da reforma é impressionante, porque muitas das testemunhas da época ficaram encantadas com o que estava sendo feito”. Ele, ao contrário, já percebia o drama de quem era expulso – o que redundaria, em última instância, em um problema crônico das cidades brasileiras, presente até hoje – e também se insuflava com o que via como exportação de padrões europeus de cidades, sobretudo Paris, para o Brasil. Grande birra de sua vida, por exemplo, era o bairro de Botafogo e a cidade de Petrópolis, ambos “afrancesados”.

Ficha de internação
Ficha de internação DIVULGAÇÃO

O triste fim de Lima Barreto

Entre 1909, ano de lançamento de Memórias do Escrivão Isaías Caminha, e 1922, data de sua morte, aos 41 anos, Lima escreveu centenas de crônicas e contos, como O homem que sabia javanês e Nova Califórnia, e publicou ao menos uma obra-prima: O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de 1911. Outros romances, como Numa e Ninfa e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, também foram publicados no curto intervalo de tempo. Além dessas publicações, muito material veio a público depois de sua morte, como o Diário ÍntimoClara dos Anjos e Os Bruzundangas. Em suma, foi uma produção profícua e intensa.

Com uma vida marcada pelo alcoolismo, contudo, seus textos e livros foram vistos e avaliados por críticos muitas vezes como erráticos. Lima acumulava diversos projetos ao mesmo tempo e não se encaixava no perfil virtuoso com que escritores eram vistos. Além disso, o tom autobiográfico de seus livros e a falta de preocupação em esconder a real personalidade de alguns de seus personagens não eram bem avaliados na época. Em Memórias do Escrivão Isaías Caminhas, por exemplo, ele retratou criticamente diferentes jornalistas que eram facilmente reconhecíveis, como o célebre cronista João do Rio e Edmundo Bittencourt, dono do Correio da Manhã, um dos jornais mais influentes da época. Não teve vida fácil após isso.

Caricatura do escritor
“Foi só depois de 1950, quando ele foi redescoberto pelo biógrafo Assis Barbosa, que sua obra começou a circular novamente, mas acho que seu nome só foi ser mais lembrado, de fato, recentemente”, diz Schwarcz. Hoje ele também será o principal homenageado da Festa Literária de Paraty, que acontece no final de julho. Segundo a biógrafa, também é interessante pensar que se a imagem do escritor boêmio foi tão romantizada em alguns casos na história da literatura, em Lima Barreto ela sempre foi vista como algo depreciativo. “A boemia e o alcoolismo, no caso dele, sempre apareceram como acusação”, diz a biógrafa. Por trás disso, talvez esteja a questão racial mais uma vez. Não que Lima não tivesse problemas graves com álcool. Tinha e eles custaram sua saúde. Mas é curioso pensar na diferença de tratamento que sua boemia recebia.

Em 1919, quando foi internado pela segunda vez no Hospício Nacional, Lima já era descrito como alguém andrajoso, com os sapatos trocados, transpirando muito, com inchaços no rosto e olhos “sampaku” – quando há um branco abaixo da íris, característica comum ao alcoolismo. Três anos depois morreu deitado em sua cama, enquanto lia uma revista francesa. Nessa época, Schwarcz descreve, sua personalidade estava se fundindo, cada vez mais, com a dos sofridos moradores dos subúrbios – tão retratados em seus textos.

 

A matéria completa, do EL PAÍS Brasil, com direito aos extras, aqui.

Detalhes da homenagem da FLIP, aqui.

Indigente consegue uma moradia graças ao sucesso comercial de seu livro

A salvação de Jean-Marie Roughol foi uma frase de desprezo que acabou chegando aos ouvidos certos. Esse indigente parisiense pedia esmola nos Campos Elíseos quando viu Jean-Louis Debré, ex-ministro do Interior e um dos políticos de melhor reputação da França, trancar o cadeado de sua bicicleta. Roughol o reconheceu e se propôs a tomar conta dela enquanto o político visitava um shopping center. A rápida conversa chamou a atenção de um casal. “Você viu? Debré está falando com um vagabundo!”, disse o homem à mulher, em tom jocoso. Depois de ouvir isso, num impulso de raiva, Debré soltou a frase que mudaria a vida de Roughol. “Escute, Jean-Marie, eu acho que você tem muito mais coisas para contar do que essas pessoas. Escreva a sua história para mim. Escreva a sua vida. Escreva um livro para mim. Eu o corrigirei e acharei um editor”.

A história é linda! Para ler tudo, clique aqui.

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Para ler como um escritor

Para ler como um escritor

Long time no see, né? Pois cá estou; apareci, finalmente. Tudo bem com vocês?

Hoje vim falar um pouquinho mais da importância da leitura na formação do escritor. Já disse algumas vezes que não acredito que possam existir bons escritores que não tenham sido, no mínimo, atentos e vorazes leitores, né? E não acredito mesmo; mas não basta ler mais, não basta nem ler muito. É preciso ler, é fundamental ler muito, ler “de um tudo” e ler muito atentamente. Duas observações aqui: você pode – e deve – priorizar o tipo de literatura que mais gosta; se romances, leia muitos romances; se contos, leia muitos contos; se crônicas, leia muitas crônicas, por exemplo. Isso vale também para  escolher os autores que vai ler. A outra observação – que é quase um conselho – é: se você não gosta de ler nada, melhor desistir de escrever agora mesmo.

Por mais que exista material teórico para nos auxiliar no ofício de escrever, há dois pilares básicos que adubam um potencial escritor: a leitura e a prática da escrita [e não conheço professor sério que discorde disso]. Mas que tipo de leitura seria esta afinal?

Em diferentes momentos, durante a leitura de alguns livros – que talvez tenham se tornado os favoritos de vocês – vivenciamos verdadeiras epifanias.

(Parênteses para quem não está lendo o suficiente e não sabe o que é epifania:
epifania | s. f.

e·pi·fa·ni·a 
(grego epifáneia, -as, aparição, manifestação)
substantivo feminino
1. [Religião]  Manifestação de Jesus aos gentios, .notadamente aos Reis Magos.
2. [Religião]  Festa religiosa cristã que celebra essa manifestação. = DIA DE REIS
3. Qualquer representação artística dessa manifestação.
4. [Religião]  Aparecimento ou manifestação divina.
5. Apreensão, geralmente inesperada, do significado de algo.

“epifania”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

Fecha parênteses.)

Epifania é aquele momento da leitura em que a identificação com uma personagem, ou com o desenrolar da trama, ou, talvez, com uma determinada frase, parágrafo ou sentimento, reverbera bem lá no fundo da gente. Aquela hora em que você pensa, com seus botões ou com a pessoa que está ao lado no metrô, “caramba, esse livro é bom mesmo!”, ou “essa história é interessantíssima…” ou “esse escritor sabe o que faz.”. Enfim, qualquer coisa parecida com isso; tenho certeza que vocês entenderam o que eu quero dizer ou não estariam lendo esse texto.

 

A diferença entre um leitor e um escritor é que o escritor, nesse momento (ou, se for paciente, quando terminar o livro), vai reagir. Pode ser que ria sozinho, que olhe pro teto, que suspire – até aí, nenhuma diferença do simples leitor. Mas, em seguida, perguntas sem resposta vão ecoar na cabeça dele. De algum modo, intencionalmente ou não, a mente do escritor vai tentar dissecar o que acabou de acontecer. Pode ser que sublinhe, dobre a página, que faça anotações num caderninho. Um escritor nunca deixa uma epifania passar em branco. Ele vai dar um jeito de interiorizar aquele insight, aquela sensação – pelo menos subjetivamente. Se estiver mesmo determinado a ser escritor, há de voltar àquele trecho o quanto antes e se perguntar por que é tão interessante; e, talvez, formular uma meia dúzia de perguntas e respostas para o enigma. Mesmo que não chegue a uma resposta, nesse caminho ele já vai ter aprendido e apreendido muita coisa sobre o ofício de escrever.

Empatia é uma das chaves. Escolha de palavras é outra. São tantas…

Há muito mais do que teoria na aprendizagem da escrita literária. E há, sobretudo, a emoção (as boas, as más, as desconfortáveis, as agradáveis…).

Para escrever melhor, perguntem-se: no que eu tenho lido, o quê – e por quê – tem me emocionado?

(E me contem, boas dicas sempre são muito bem-vindas!)

;)

Até a próxima!

Maria Rachel

Como manter um diário pode mudar sua vida – e sua escrita

Quando falo de diário, estou falando daqueles caderninhos antigos, feitos de papel, onde você escreve com um lápis, ou com uma caneta, ou mesmo com hidrocor, giz de cera e outros objetos primitivos. Muitas pessoas já se acostumaram à escrita exclusivamente digital, mas manter um diário em papel e escrever nele é, além de enriquecedor para a alma, um registro de seus pensamentos e emoções para a posteridade.

  1. Alivia o Stress

Atualmente, estamos sempre em movimento. Da hora que acordamos até a hora de dormir, o dia traz uma série de coisas pra fazer: higiene pessoal, transporte para o trabalho, o trabalho, a volta pra casa, cozinhar, cuidar da casa, tempo pra família – e começar tudo de novo no dia seguinte. Se dedicar, por 5 ou 10 minutos por dia, a escrever no seu diário, permite uma pausa entre os afazeres e traz você à realidade, sem direcionar seus pensamentos para o futuro ou para o passado. Além disso, pesquisas comprovam que escrever à mão reduz sua respiração e aumenta o foco.

  1. Você pesca melhor as ideias e invoca a tal da inspiração

As melhores ideias e epifanias costumam chegar sem alarde. Dificilmente elas irão esperar para aparecer quando você estiver confortavelmente preparado para escrevê-las, na frente do seu computador. Escrever nesse caderninho, que pode andar com você pra cima e pra baixo, é garantir que elas não vão se perder no atropelo do dia-a-dia.

  1. É um refúgio livre de julgamentos alheios

Como a ideia de um diário é que ele seja privado e você não vá mostrar pra ninguém, trata-se de um espaço onde você pode ser quem você quiser, inclusive você mesmo. É onde você pode confessar seus segredos mais obscuros, seus medos e alegrias, na segurança de que “está tudo bem”. Colocar as coisas no papel pode, inclusive, clarear suas ideias e desmistificar algumas questões.

  1. Repositório de sensações

Se você gosta de escrever ficção, por exemplo, o seu diário poderá sevir como um verdadeiro dicionário de emoções. Como é ali que você vai escrever sobre como se sentiu quando brigou com o seu chefe, por exemplo, pode ser ali também o lugar ao qual você vai recorrer para descrever as sensações do seu personagem que agora se encontra na mesma situação.

  1. Criatividade sem limites

No seu caderno, diário, chame-o do jeito que quiser, você pode incluir não apenas o texto, mas também fotos, recortes, ingressos de experiências que marcaram você de alguma forma. A conexão inesperada entre elas (que você vai poder vivenciar depois de ter reunido algum material) poderá trazer ainda mais inspiração.

  1. O poder do hábito

Escrever por 5 minutos, todos os dias num diário, cria o hábito da escrita. É um tempo relativamente pequeno, mas que vai ajudar você, que quer ser escritor, a ter disciplina. Se além de escrever você tem outros objetivos, registre no diário/caderno cada atitude tomada em relação ao atingimento da meta. Essa ferramenta pode te dar uma visão melhor do todo do que apenas aquelas que você “guarda de cabeça”. A palavra escrita ajuda a clarificar as ideias, lembra?

O paraíso são os outros

Para assinalar o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP, a Porto Editora aliou-se ao realizador Miguel Gonçalves Mendes na publicação de “Sotaques”, um vídeo que celebra a diversidade da língua portuguesa no mundo através da leitura de “O Paraíso são os outros”, de Valter Hugo Mãe.

O que eu devo ler para ser um bom escritor?

As pessoas chegam até a oficina do Terapia da Palavra ávidas por teoria, fórmulas prontas, uma lista com os 10 segredos que tornam qualquer pessoa em um bom escritor. Sempre dizemo isso, mas, não custa lembrar, nós, aqui, não acreditamos em fórmulas. Não há como encaixar todos os livros do Saramago, o fluxo de consciência da Clarice Lispector e os haicais do Leminski numa equação uniforme. Há sim, alguns bons conselhos espalhados por aí, mas antes disso, há muito mais coisa do que se supõe.

Pra início de conversa, ou de texto, há algumas ferramentas que consideramos indispensáveis. A primeira é a leitura. Não acreditamos que seja possível um bom escritor que não seja um ávido leitor. De preferência, um que tenha lido muito e ao menos um pouco de tudo. Alguma familiaridade com a matéria prima da qual a literatura é feita, as palavras, é condição sine qua non para essa aventura.

O primeiro indício que alguém poderá vir a ser um bom escritor, é, quando esse alguém, além de ler, se emociona quando lê. É alguém capaz de reconhecer em si a admiração e um pouco de inveja, ao se deparar com uma história tão bem contada, como naquele conto ou romance preferido. Ler, descrito em detalhes, aquele sentimento que você nunca entendeu, nem soube explicar direito, também costuma provocar essa admiração e essa cobiça.

Pra essa turma, recém fisgada por essa vontade de sair escrevendo por aí, gostamos muito de recomendar dois livros (há muitos livros bons, mas esses dois transmitem o que acreditamos ser mais importante nesse início de jornada).

ESCREVENDO COM A ALMA (Nathalie Goldberg)
Escrito em 1986, o livro é considerado a base de todo processo de Escrita Criativa. Nathalie dá dicas sobre como vencer a página em branco, suas inseguranças, a função da escrita como terapia, a importância da prática e, claro, como superar o medo de escrever.

A LOUCA DA CASA (Rosa Montero)
Nessa mistura de romance e ensaio, dedicado à própria literatura e ao ofício de escrever, Rosa nos pega pela mão para passear entre as flores e os espinhos da aventura da escrita. O que é memória e o que inventamos? A louca da casa, a imaginação, é inseparável durante toda a leitura, que é uma delícia!

E você? Já leu algum destes livros? Conte sua opinião pra gente, aí nos comentários!

Figuras de linguagem na escrita literária

Esqueça quando aprendeu as figuras de linguagem no colégio. Naquela época, só de pensar em decorar os nomes (catacrese, assíndeto) de cada uma já dava um frio na barriga. Isso já passou. Agora assista a este vídeo com a sua atenção direcionada aos efeitos das figuras de linguagem no discurso: Chico, Vinícius, Camões.

Depois conta pra gente se elas são ou não são um recurso fantástico!

 

A importância do vocabulário na escrita

Todo mecânico tem uma caixa de ferramentas variadas. Algumas são mais usadas que outras, mas cada uma tem um propósito específico. Da mesma forma, os escritores também têm sua “caixa de ferramentas”. E ela está em constante crescimento, preenchida com itens como leituras, muitas leituras, gramática, pontuação, figuras de linguagem, rima, ritmo… e vocabulário.

Por que um vocabulário forte é importante?

Usamos palavras faladas e escritas todos os dias para comunicar ideias, pensamentos e emoções. Às vezes nos comunicamos com sucesso, e às vezes não somos tão bem sucedidos. “Mas eu não disse isso”, “Não foi isso que eu quis dizer!” etc, tornam-se nossos mantras nesses momentos de confusão semântica, mas o caos já está instalado. No entanto, um bom vocabulário pode nos ajudar a dizer o que queremos dizer – e a explicar que focinho de porco não é tomada.

Quando você é desafiado a escrever sobre qualquer assunto, seja na sua vida profissional ou privada – seja um relatório para o chefe, uma carta de amor ou um recado para a diarista – dispor de um bom vocabulário é um diferencial. Se você tem vários sinônimos em seu repertório, será capaz de escolher a melhor palavra para aquela determinada frase.

Indo além, é possível argumentar que, a rigor, não existem sinônimos exatos. Em outras palavras (sempre elas!) cada palavra é única. Duvida? Conhece algum comercial de desodorante que prometa um “sovaco cheiroso”? Você vai encontrar alguns que falam da proteção das axilas ou outros, ainda mais pudicos, que falam do controle da transpiração. Convenci? Para quem gosta do tema (e lê em francês), indico um livrinho muito legal sobre sinônimos: “Un bouquin n’est pas un livre”.

Para além das questões de equivalência ou não de termos, ter um arsenal variado de palavras também nos ajuda a evitar termos genéricos e sem graça. Como resultado, produzimos textos mais ricos, sem repetição de palavras desnecessárias. E, é bom lembrar, a escrita pode (deve) ser um exercício da liberdade. Como disse Clarice Lispector “Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” A partir disso, voltando às ferramentas bem específicas para pensar: cada palavra inocente tem seu poder especial de captar um pedaço único da experiência humana no mundo. Palavras são poderosas, não?

Aumentando seu repertório

Uma das maneiras de melhorar o seu vocabulário é usar os dicionários. Toda gente que escreve deveria ter, além de um dicionário comum (Houaiss, Aulete), um dicionário de sinônimos e um tesauro (não, não é um tesão de dinossauro, mas um dicionário de ideias afins). E ele, como nós, também está na internet, em várias línguas. Alguns exemplos: https://www.sinonimos.com.br e http://www.thesaurus.com.

Como as palavras que não são usadas são facilmente esquecidas, além de ler muito, é preciso também escrever, afiar, usar essas palavras até que estejam devidamente incorporadas no seu HD mental. E fazer isso pode ser muito divertido! Mesmo que você seja um/a profissional das chamadas ciências exatas.

Um grupo de escritores e matemáticos criou, na França, na década de 60, um movimento chamado OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle, algo como uma “oficina de literatura potencial”), que propõe a libertação da literatura, de maneira aparentemente paradoxal, através de restrições literárias. Um de seus idealizadores, Georges Pèrec, escreveu um romance inteiro sem utilizar a vogal “e”, a mais comum no idioma francês, equivalente ao “a”, em português. Imaginem de quantas palavras ele precisou se lembrar (ou descobrir com a ajuda de um dicionário) pra conseguir essa façanha? Mas não é necessário partir logo para a escrita de um romance. Confira aqui alguns desafios propostos pela OuLiPo:

Algumas regras (contraintes – restrições)

Abecedário – texto onde cada palavra deve ser iniciada por um letra diferente na seqüência do alfabeto; exemplo: A brader: cinq danseuses en froufrou (grassouillettes), huit ingénues (joueuses) kleptomanes le matin, neuf (onze peut-être) quadragénaires rabougries, six travailleuses, une valeureuse walkyrie, x yuppies (zélées).

Lipograma – texto onde alguma letra deve ser surpimida; é o caso do livro La disparition, de G. Pérec, onde a letra “e”, vogal mais frequente no francês, não aparece.

Bola de Neve – Poema em que cada verso contém uma só palavra, sendo que, cada verso que segue, deve ter uma letra a mais que o verso anterior.

E, claro, palavras cruzadas também são uma ótima maneira de ressuscitar os verbetes que andam esquecidos aí dentro das gavetas. Tem alguma palavra ou expressão que você goste muito e use pouco? Quem sabe não chegou a hora de leva-la pra passear?

A literatura como remédio

Para o historiador Dante Gallian a prevenção para os males do corpo e o padecimento da alma está na leitura dos grandes clássicos. Ele pesquisa o poder disso há quase duas décadas e garante que Shakespeare, Machado de Assis ou Homero podem nos salvar de muitas maneiras. Confira a entrevista que está na revista Vida Simples este mês, aqui.

Eu sou um escritor

Eu sou um escritor.

As personagens que eu crio,
não são eu.

Elas são parte de mim.

Elas são a parte de mim que é
aventureira
romântica
guerreira
princesa
heroína
vilã
anormal
amiga.

Elas são as partes que
eu escondo
eu gostaria de ser
eu fui
eu serei.

Toda história é baseada na verdade. Na sua verdade.

POR QUE ESCREVER FAZ BEM PARA O CORPO E PARA A MENTE

Você não precisa ser “de humanas” para escrever todos os dias. E nem precisa ser fã de “textão” no Facebook para sentir na pele os benefícios do exercício de escrever diariamente. Na verdade, você nem precisa publicar nada. Apenas o simples ato de escrever, à mão ou no computador, pode trazer uma série de benefícios para sua saúde.

Escrever é se comunicar, seja com o mundo ou apenas com você. É uma forma de organizar ideias, de construir conhecimento, de treinar o cérebro. Quando você escreve apenas para treinar, pode fazer isso desligado da internet, dando um tempo para refletir sobre si e sobre a vida.

Além disso, com o tempo, você poderá perceber que suas habilidades com as palavras vão melhorar. Assim, você não só saberá se expressar melhor como também poderá desenvolver um pensamento mais analítico. Escrever, tal como um esporte, é questão de treino. E depende apenas de você.

Tais ideias são defendidas por grandes personalidades, como o investidor bilionário Warren Buffet, que diz que escrever é o segredo para refinar seus pensamentos. Richard Branson, famoso empreendedor, escreve vários posts em sites e redes sociais. Ele, que tem fortuna avaliada em mais de US$ 5,6 bilhões, já afirmou: “minha posse mais essencial é um caderno escolar padrão”

E os benefícios você só poderá perceber testando. Mas caso você ainda esteja com um pé atrás antes de começar a escrever só pelo treino todos os dias, veja um pouco do que cientistas falam sobre a importância da escrita.

Pesquisas indicam que escrever pode trazer benefícios para a saúde

Há diversos assuntos e tópicos que você pode escrever e que te trarão diferentes resultados. Pesquisa desenvolvida por Laura A. King, uma pesquisadora da Universidade Metodista Meridional, nos Estados Unidos, mostra que registrar suas metas de vida pode trazer benefícios psicológicos.

A pesquisa foi conduzida com 81 estudantes que deveriam dissertar sobre o evento mais traumático de suas vidas, o que esperavam de melhor sobre o futuro, uma mistura dos dois tópicos, ou algum tema não emocional. Após três semanas, a cientista observou que as pessoas que escreviam sobre seu melhor futuro tinham melhoras significativas no humor. Quando o experimentou passou de cinco meses, pessoas que escreviam sobre os traumas também passaram a apresentar melhoras no humor.

“Acreditamos que escrever sobre eventos estressantes ajudaram os participantes a tomarem consciência desses acontecimentos e reduzirem o estresse”, comentou Elizabeth Broadbent, coautora do estudo, ao site da revista Scientific American.

Resultados semelhantes foram encontrados com pacientes que sofrem com câncer. Um estudo publicado no The Oncologist, uma revista científica especializada na doença, mostrou que ao escrever de forma expressiva, pacientes com leucemia e linfoma mostraram melhorias. Quase metade deles (53,8%) afirmaram que, após três semanas escrevendo 20 minutos ao dia, o hábito ajudou a mudar seus pensamentos sobre a doença. A mudança de pensamento foi associada a melhorias físicas.

Muito além de uma hashtag no Instagram, a gratidão realmente tem efeitos benéficos na vida. Escrever pelo que é grato, todas as semanas, deixa as pessoas mais positivas e motivadas sobre o seu futuro – como revela esse estudo, da Universidade Kentucky, reportado pelo jornal The New York Times.

Outro estudo, publicado no Academy of Management Journal, acompanhou 63 engenheiros que foram demitidos. Os pesquisadores os dividiram em três grupos: um primeiro que deveria escrever sobre temas não emocionais, como gestão de tempo; um segundo que não deveria fazer nada; e um último que escreveria sobre seus sentimentos.

Após três meses, apenas 5% dos engenheiros do primeiro e do segundo grupo foram recontratado. Já entre os que escreviam sobre seus sentimentos, 26% conseguiram retomar seus empregos. Após oito meses, a diferença foi ainda maior: 19% dos participantes dos primeiros grupos foram recontratados, contra 52% dos que estavam no último.

Os que escreviam sobre seus sentimentos mostraram guardar menos remorso e raiva contra seus antigos empregadores. Eles não fizeram mais entrevistas que os outros, mas se saíram melhor nelas.

 

Cursos gratuitos sobre mitologia

Na história de quase todas as civilizações, é provável que mitos e lendas sempre tenham feito parte da sabedoria popular. Seja por superstição ou por alguma crença religiosa, a origem dessas lendas compõe a cultura dessas sociedades e serve como representação do passado e religiosidade de cada uma delas.

Mitos também podem inspirar – e muito – obras literárias. Arquétipos estão por aí o tempo inteiro, é a forma como processamos o mundo e também nossas emoções.

Quer saber mais? Confira, nesse post da revista Galileu 4 cursos e canais gratuitos sobre mitologia e inspire-se!

Como ser mais criativo em 6 passos

michelangelo

Ser criativo faz parte da natureza humana – e os desenhos nas cavernas são a prova disso. Mesmo quando a vida era muito mais bruta, ainda havia espaço para a criação. Mas, só porque todo mundo possui criatividade em si não quer dizer que exista uma única forma de expressá-la. Ela se manifesta de formas diferentes e, por isso, pode ser estimulada de variados modos.

Existem, no entanto, pesquisas da neurociência e dicas de especialistas que servem para qualquer cérebro. A revista Superinteressante, em 2014, conversou com Mark Randall, chefe de estratégia e vice-presidente de criatividade digital da Adobe. Antes de integrar uma das maiores corporações da área de criação, Randal foi um criador de start-ups em série. Hoje, ele define quais serão as maiores tendências do mercado de criação a longo prazo. “Eu não conheço nenhum humano que não seja criativo. Se você não tem mais criatividade, você perdeu sua humanidade”, disse à Galileu Mark Randall. Também usamos como base para a lista o livro Zig zag: The Surprising Path to Greater Creativity, de Keith Sawyer, um dos maiores especialistas em criatividade dos Estados Unidos. Confira:

1 – Valorize suas ideias e pare de se importar com a opinião dos outros

Pablo Picasso já dizia que todas as crianças nascem artistas. “O problema é manter -se artista depois de crescido”, afirmava o pintor. Por quê? “Às vezes as expectativas dos outros minam a nossa criatividade, mas muitas vezes nós fazemos isso com nós mesmos”, afirma Randall. Aquela gozação do coleguinha sobre sua letra ou a professora que lhe disse que desenho não era com você podem ter causado um efeito maior do que você imagina. Por sorte, ninguém pode acabar com sua criatividade sem seu consentimento. A maioria dos grandes artistas não davam a mínima para a opinião dos outros. Valorize seus rabiscos, mesmo que ninguém mais os valorize.

2 – Faça perguntas, muitas perguntas

Certa vez, perguntaram a Albert Einstein como ele resolvia problemas, e ele respondeu que, se tivesse uma hora para resolver um problema e sua vida dependesse disso, ele passaria 55 minutos definindo a pergunta certa a fazer. “Quando eu soubesse a pergunta correta, poderia resolver o problema em menos de cinco minutos”, disse o gênio.

Como Keith Sawyer disse no livro Zig zag: The Surprising Path to Greater Creativity, se você está empacado em algum problema, é porque está respondendo a pergunta errada. “Pensar coisas novas exige fazer novas perguntas, não responder as mesmas perguntas melhor ou de formas diferentes. As melhores respostas surgem depois de redefinir a pergunta”, diz Randall.

3 – Rebele-se

Osho, guru indiano e mestre da meditação, dizia que a criatividade é a maior rebelião da existência. Faz sentido na medida em que, para descobrir um problema e resolvê-lo da melhor forma possível, você precisa enxergá-lo. Se você aceita a realidade como ela é, dificilmente você vai teorizar sobre como ela poderia ser diferente. “Nesse sentido as pessoas precisam discordar mais, dizer ‘eu sei que é assim, mas poderia ser muito melhor’. O termo que eu uso é ser construtivamente insensato”, afirma Randall.

4 – Combine ideias antigas

Segundo Keith Sawyer, os melhores insights vêm da combinação de ideias completamente sem relação. “Desenhe um móvel que lembra uma fruta ou um abajur que também é um livro ou apenas escolha duas palavras aleatoriamente fechando seus olhos e apontando para páginas de um livro e invente uma combinação”, diz ele no seu último livro.

Você também pode gerar novas ideias fazendo uma lista sobre como o mundo poderia ser diferente, por exemplo, se existissem cinco sexos ou se a gravidade cessasse um segundo por dia. Depois, é só cruzar as respostas e tentar extrair algo genuíno.

5 – Abra caminhos

Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios da história, não era apenas um artista, mas arquiteto, músico, matemático, engenheiro, especialista em anatomia, geólogo e botânico. Ufa. Lembra aquele sonho infantil de ser cantora-modelo-atriz-e-apresentadora. Pode ser improvável na vida real (ao menos para mim), mas se tem algo que criança entende é de criatividade. Basicamente porque a criatividade está ligada ao apetite voraz por conhecimento. Por isso, pessoas criativas geralmente se dedicam a assuntos sobre os quais elas nada sabem só pelo hobby. O gosto pela variedade também pode ser aplicado a pessoas. Quanto mais diverso é seu grupo de amigos, melhor. Ter a cabeça aberta pode ajudar você a ter ideias inovadoras, de acordo com Sawyer. “Quando você está em um obstáculo criativo, tente imaginá-lo como um problema em um mundo completamente diferente, como no de design de móveis, em uma prisão ou circo. Como seu problema pareceria nesse mundo? Como você o resolveria?”.

6 – Mexa o cérebro

São vários os estudos da neurociência que fazem uma relação entre criatividade e atividade no lobo temporal do cérebro, mais especificamente no giro temporal superior. Pesquisas apontam que acontece uma espécie de tsunami de ondas gama (ou o aumento da energia das ondas cerebrais) durante o momento “eureca”.

Outra pesquisa, da Universidade do Novo México, observou que quando as pessoas estão engajadas no processo criativo, há menos atividade no lobo frontal. Segundo o professor John Kounios, da Unviersidade de Drexel, pouco antes da “eureca”, ondas de relaxamento passam pela parte de trás da cabeça. Essas ondas são ativadas por atividades que relaxam o cérebro, como quando você fecha os olhos, medita ou corre. Charles Darwin, por exemplo, estava lendo uma tese de Thomas Malthus sobre população por pura diversão quando conseguiu cristalizar sua teoria de seleção natural. Se Darwin conseguiu, você também consegue.

Um monte de coisa boa

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Muita gente procura por manuais teóricos e quer se embasar neles pra começar a escrever. Recomendo muito pouco a leitura destes, pois acho que mais travam o escritor que não começou do que ajudam.

Já entrevistas e depoimentos de escritores, eu mais do que recomendo a leitura. Nelas é possível enxergar, muito claramente, que não há uma fórmula para o fazer literário e, quem sabe, até se identificar com este ou aquele autor.

Felizmente, existe a Paris Review, que tem um acervo MARAVILHOSO só de entrevistas e depoimentos com os mais diversos autores. Pena que é em inglês. Pra quem conhece ama literatura e conhece a língua, entretanto, é lugar pra passear ao menos uma vez por dia.

Corram pra lá!

cortazar

OS ELEMENTOS DO ESTILO

vinicius

Leio no matutino El País, de Montevidéu, uma boa crítica, ou melhor, resenha, do livro de William Strunk Jr., The Elements of Style, com revisão, introdução e capítulo adicional de E. B. White, editado por MacMillan em Nova York no ano curso. Um opúsculo de 84 páginas, aparentemente cheio de saber. À guisa de apresentação do autor, conta o crítico de El País que a parte de substância do livro já estava escrita por William Strunk Jr. desde 1918, quando era professor de altos estudos da língua inglesa, sendo E. B. White, então, aluno seu. Há dois anos, já morto o mestre em 1946, recebeu White – que crescera em renome como contista, ensaísta, poeta e repórter dessa excelente revista americana que é o New Yorker – um exemplar do livrinho, de que nunca mais soubera, o que fê-lo escrever um nostálgico in memoriam para a sua publicação. A onda que fez o artigo foi colhida pelo receptor de MacMillan, e é este o resumo da ópera.

A dar crédito ao crítico de El País, o livro representa, para o escritor em língua inglesa, e mesmo nas demais, uma bengala de indisfarçável utilidade, sobretudo num momento climáxico de atividade editorial, como o que vivemos. E eis como situa ele, ao isolar num parágrafo o módulo do pensamento de Strunk:

A prosa vigorosa é concisa. Uma frase não deve conter palavras desnecessárias, nem um parágrafo frases desnecessárias, pela mesma razão que um desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem uma máquina partes desnecessárias. Isto não quer dizer que um escritor faça breves todas as suas frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas apenas na superfície; apenas que cada palavra conta.

Para Strunk (atenção, “focas”, pois a linguagem jornalística é especialmente mencionada na obra!), os preceitos de um bom estilo podem resumir-se no seguinte:

1. Use uma linguagem positiva: em vez de “habitualmente não chegava à hora”, diga “habitualmente chegava tarde”; em lugar de “não recordou” diga “esqueceu” – e isso porque, consciente ou inconscientemente, o leitor prefere que se diga o que é a o que não é.

2. Seja concreto: “Sobreveio um período de tempo desfavorável” constitui uma vagueza. “Choveu diariamente uma semana” seria a boa fórmula.

3. Abrevie o mais que puder: escrever “atos de natureza hostil” é alongar de dois centímetros “atos hostis”.

4. Não qualifique: sempre que não se tratar de estabelecer uma opinião, a qualificação prévia é desnecessária. Dizer que é “interessante” o fato que se vai narrar, é pichar o leitor de inimaginativo.

5. Não use adornos: o estilo não é um molho para temperar uma salada; o estilo deve estar na própria salada.

6. Coloque-se atrás do que escreve: escreva de tal forma que a atenção do leitor seja despertada sobretudo pelo sentido e pela substância do que está dito, e não pelo temperamento e pelos modismos do autor. O primeiro conselho a dar ao escritor que começa seria, pois: para chegar a um estilo, comece por não ter nenhum.

7. Use substantivos e verbos: evite o mais possível adjetivos e advérbios. Não há adjetivo no mundo que possa estimular um substantivo exangue ou inadequado; isto sem subestimar adjetivos e advérbios, quando corretamente empregados. Mas a verdade é que são os nomes e os verbos que dão sal e cor ao estilo.

8. Não superescreva (significando aqui, don’t overwrite): a prosa excessivamente rica, adornada ou gorda torna-se mais facilmente nauseante.

9. Não exagere e seja claro: primeiramente, porque o exagero pode tornar o leitor suspicaz; e a clareza, é lógico, facilita a comunicação. Mais vale recomeçar uma frase longa com que se está brigando, que persistir na briga. Freqüentemente uma frase longa nada mais é que duas curtas.

10. Não opine sem razão: ter por hábito ventilar opiniões próprias é prejulgar que o leitor as esteja pedindo, o que constitui um sinal de vaidade.

É isto em resumo. Há mais. Mas não espaço. E depois, é como diz o outro: se todos fossem da mesma opinião, o que seria da cor amarela? (Sendo que, neste caso, até que eu “entrava bem”, pois trata-se da minha cor preferida … ). Mas pobre Proust, pobre Dickens, pobre Balzac, pobre Melville, pobre Otávio de Faria…

Por Vinicius de Moraes, que sabia das coisas.

Esqueça o que você sabe sobre criatividade

Copo de cerveja, música árabe, bailarina de dança do ventre. Escrevo esta matéria de um lugar meio inusitado. Fumaça, pessoas batendo palmas, casal discutindo. Estou a 500 km de casa, não conheço ninguém nesta cidade e tenho que entrevistar um cientista amanhã cedo. O que faço aqui, afinal? Tento ser criativo.

Pode parecer estranho, mas ajo segundo a ciência. De acordo com descobertas recentes é exatamente numa situação como essa que é mais provável ter ideias inovadoras. Foco, concentração extrema, reflexão solitária? Esqueça. Se você está em busca da ideia genial, é hora de rever seus conceitos. A fórmula para o insight pode estar onde você menos imagina.

ACRIVIDATIDE

Mas o que é um insight? Para tentar entender, vamos provocar um agora mesmo dentro de sua cabeça. Está vendo estas letras aqui: ULIGALE? Tente organizá-las para formar uma palavra. Se você entendeu o título aí em cima, já está craque nisso. Segundo Jonah Lehrer, autor do recente livro Imagine: How Creativity Works (Imagine: Como a Criatividade Funciona — ainda sem tradução para o português), existem dois métodos possíveis para resolver esse problema. Um deles é examinar, letra a letra, quais são as sílabas mais prováveis. E depois rearranjá-las até que surja uma palavra. O outro? Boa pergunta. A palavra simplesmente surge, como que por mágica, na sua mente. É o insight.

Continue lendo no site da Galileu, aqui.

A palavra menor – José Eduardo Agualusa

A escrita que ganha força com o poder das palavras curtas e da simplicidade

Reler Eça de Queirós continua sendo a melhor terapia para regenerar o espírito, quando nos achamos debilitados pela leitura dos jornais e por uma exposição exagerada às falas e discursos dos políticos. Foi assim que dei com um curioso texto, pouco conhecido, inserido numa edição, já com mais de um século, d’“As cartas inéditas de Fradique Mendes”. Neste texto, o extraordinário Fradique reflete sobre criação literária, defendendo a simplicidade e a clareza: “Flaubert catava dos seus livros todos os termos que não pudessem ser usados na conversa pelo seu criado: daí vem ele ter produzido uma prosa imortal. (…) O homem pensa em resumo e com simplicidade, nos termos mais banais e usuais. Termos complicados são já um esforço de literatura — e quanto menos literatura se puser numa obra de arte mais ela durará.”

Recordei-me de um comentário de Gonçalo M. Tavares, explicando o seu processo criativo: “Entre duas palavras escolho sempre a menor.”

Eis, numa breve frase, toda uma aula de escrita criativa. A propósito de aulas de escrita criativa, há muito me apercebi que o principal problema de grande parte dos jovens aspirantes a escritores — ao menos os que frequentam tais aulas —, está precisamente nesse “esforço de literatura” de que falava Eça. As coisas não mudaram muito nos últimos 150 anos. Em algumas das oficinas literárias que realizei, as primeiras aulas foram as mais difíceis, tentando convencer os alunos a esquecer a literatura para, simplesmente, escreverem. […]

 

O que é ESCRITA CRIATIVA?

Chama-se  escrita criativa toda escrita que não é essencialmente técnica ou acadêmica. Artigos científicos, textos em tabelas, e-mails de trabalho, por exemplo, não são formas de escrita criativa, mas quase tudo o que você lê é – ou poderia ser classificado como – escrita criativa. Um texto no Facebook, um e-mail que você manda para um amigo, o texto que você escreve para acompanhar um cartão de aniversário… isso pra não falar em toda a literatura e na música, ou melhor, na letra.

O curioso é que praticar a escrita criativa vai te tornar mais capaz de escrever bem qualquer coisa, inclusive textos técnicos e acadêmicos.

 

A importância da prática

A prática da escrita, embora pareça óbvia, não é. Muito pouco se pratica o escrever, com a intenção de melhorar o produto final, especialmente depois de concluídos colégio e faculdade. Pressupomos, erradamente, que já sabemos português o suficiente e que acabou aí nossa aprendizagem.

Em teoria, poderia até ser. Em teoria.

Da mesma forma que alguém provavelmente vai engordar depois de dar por encerrado um regime que o ajudou a emagrecer, uma atitude blasé com a escrita – aliada à falta de prática – só tende a tornar o seu texto cada vez pior. Já vi MUITO doutor escrevendo voçê, confundindo a gente com agente e até de repente junto já encontrei (com as variações derrepente e derre pente, espantosamente). Isso pra não mencionar as construções de frase que não fazem sentido nenhum para quem lê.

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Há uma crença que jornalistas e outros profissionais do texto escrevem melhor que os demais. E, de modo geral, escrevem mesmo. Pode até ser que alguns tenham nascido com o que se chama de “dom” (mas isso não seria exclusivo dos profissionais em questão); a verdade é que a grande maioria deles escreve bem porque nunca parou de exercitar a escrita, ou seja, como praticam regularmente a aptidão adquirida de organizar ideias em textos, estão “em forma”.

Diferente da escrita técnica ou acadêmica, a escrita criativa, por englobar quase tudo, abre muitas possibilidades pra imaginação. Quanto mais você começa a praticar, mais o mundo parece esconder histórias e a cada dia você também vai enxergar mais histórias pra contar.

O papel primeiro de uma oficina de escrita criativa é o de acordar o músculo de escrever, agora acomodado em postagens no Facebook ou na redação de e-mails curtos e objetivos. É ajudar com os primeiros passos nessa redescoberta do mundo das frases, parágrafos, metáforas e substantivos. Ao invés de focar na estrutura das orações, como numa análise sintática, uma oficina de escrita criativa irá exercitar a expressão, as formas diferentes de dizer cada coisa, em colocar pensamentos e emoções no papel, dizendo exatamente – ou quase – o que se quer dizer, conforme o propósito.

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Você ama escrever e escreve regularmente, será que ainda assim uma oficina de escrita criativa é pra você?

Claro! Quem é que quer escrever pra ninguém? Imagine que bacana praticar a escrita, transformar suas ideias em textos e, em seguida, compartilhar estes textos com pessoas que tem o mesmo objetivo que você? Mesmo que você seja um autor publicado e se considere bom o suficiente, uma oficina de escrita pode ser pra você. Como eu disse lá em cima nesse artigo, a prática e a troca vão servir, se não pra acordar o músculo, pra variar o exercício, tirando você da prática solitária e sem feedback. Além do que, oficinas de escrita criativa são ótimos lugares – virtual ou presencialmente – para fazer novos, e interessantes, amigos. (:

Advirto, porém: os efeitos colaterais são muitos e escrever vicia. Mas há quem garanta – como o Joseph Pennebaker, com quem concordo 100% – que é um vício que faz bem.

 

Maria Rachel, do Terapia da Palavra

Mais, aqui, ó.

Como escolher uma OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA?

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Quem deve fazer uma oficina de escrita criativa?

Todo mundo que gosta escrever e quer aprender a escrever melhor.

 

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Como escolher uma oficina de escrita criativa?

Há alguns pontos que eu considero importantes e acho que vocês deveriam levar em consideração na hora de escolher. O mercado tem algumas propostas boas e muitas, muitas ruins. No meu entender, a boa “oficina” ou “curso” de escrita criativa é aquele que promove a escrita e que dá feedback. Claro que a teoria é importante, mas pagar 300, ou 500, ou 1000 reais por um conteúdo que você pode encontrar de graça no Youtube não faz muito sentido. Uma boa proposta vai ter, além de alguma teoria, um profissional (orientador, professor) pra te ler, mesmo que o objetivo não seja a censura, mas o apontar de um caminho.

Se você não tiver um feedback sobre seus pontos fortes e fracos, como é que você vai ter uma pista de qual direção tomar?

Outra coisa: evite oficinas que trabalham com grupos maiores que 20 pessoas. É humanamente impossível desenvolver um trabalho decente de acompanhamento em grandes grupos.

O quanto se pode aprender nas oficinas de escrita?

Você já ouviu dizer que “o hábito faz o monge”, né? Pois; a primeira coisa que uma oficina de escrita vai te ensinar é: só se aprende a escrever escrevendo. Numa oficina, você vai trabalhar com prazos, vai sentar para escrever mesmo sem estar especialmente inspirado naquele dia ou naquela semana. Então, a primeira lição que ela vai te dar é: a inspiração ajuda muito mais àqueles que estão com os dedos no teclado.

Além disso, a experiência de escrever com um grupo é empoderadora e enriquecedora. Primeiro porque vai romper a sua primeira barreira de censura, você vai praticar tendo leitores – que tem o mesmo objetivo que você, logo não há motivo para sentir “vergonha” em expor suas ideias. Você ganha confiança.

Em segundo lugar, participar de um grupo como esse, em especial um que trabalhe o mesmo tema para todos os participantes por produção, vai te abrir os olhos para as muitas possibilidades de uma única provocação. Sua criatividade e imaginação vão ser constantemente exercitadas, e, saindo da inércia, a tendência é que funcionem cada vez melhor. (Especialmente se seus dedos estiverem posicionados no teclado, em frente a uma tela em branco. Ou com um bloco e uma caneta à mão.)

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Eu quero uma fórmula para escrever um livro de sucesso, posso fazer o curso?

Pode, mas não vai adiantar absolutamente nada. Sabe por quê? A HISTÓRIA TEM QUE SER MAIS IMPORTANTE QUE A IDEIA DO LIVRO. Acreditamos no livro mais como uma consequência de uma boa história (ou para um punhado delas) do que como um fim em si mesmo. Não ensinamos a escrever livros, ensinamos a escrever histórias. E, em alguns casos, ajudamos boas histórias a se tornarem livros.

Uma oficina de algum autor já consagrado é a melhor opção?

Não. Mais do que um autor, de quem você precisa numa oficina, desempenhando esse papel de orientador, moderador, é de um bom leitor. Alguém atento aos detalhes e que seja crítico por natureza. Sou capaz de apostar que tanto há autores consagrados ótimos nisso quanto péssimos. As qualidades não vem juntas, necessariamente. Você pode ser um bom leitor e introjetar bem o que aprendeu e, no entanto, não ter capacidade em transmitir bem o seu conhecimento. Minha dica é: procure saber a opinião de algum ex-participante do curso ou oficina no qual você pretende se inscrever. Se isso não for possível, arrisque.

 

Maria Rachel Oliveira
orientadora na oficina de escrita do Terapia da Palavra desde 2004

Amores Inacabados

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Paixões interrompidas se tornam o símbolo das vidas nas quais, quem sabe, teríamos sido outros. Dizem que, às vezes, os mortos permanecem entre os vivos porque, antes de irem embora de vez, eles precisam pagar ou cobrar dívidas, entregar um recado, recompensar quem os ajudou ou vingar-se de quem os atrapalhou. Em suma, eles ficam durante um tempo porque sua vida deixou pendências.

Que eles andem assim pelas ruas ou pelo cérebro da gente, tanto faz. De uma maneira ou de outra, os mortos com quem temos negócios inacabados continuam entre nós.

Algo parecido acontece com nossos parceiros amorosos: alguns somem quando o amor acaba –pronto, foi bom enquanto durou. E outros, não.

Os que somem (esquecem-se da gente, e a gente se esquece deles) não foram menos significativos do que os outros –o amor não foi menos intenso.

Apenas parece que a história de amor com eles não deixou pendências.

Agora, os que não somem, assombram (e alegram) nossa vida de várias formas: em reencontros e “revivals” periódicos, no lamento tácito do “destino que nos separou” e nos sonhos do uma vida que seria “diferente”, se tivéssemos escolhido ficar com eles ou eles tivessem escolhido ficar conosco.

“Café Society” é um dos melhores e dos mais divertidos entre os filmes de Woody Allen. É também um filme maduro: se é que existe uma sabedoria dos 80 anos, Woody Allen está com ela. E os 80 são uma ótima idade para se debruçar sobre os amores inacabados.

O filme conta a história de Bobby, que vai de Nova York a Hollywood para tentar fortuna. Ele conhece Veronica. Juntos, eles sonham com Greenwich Village e parecem preferir os poetas e os artistas ao “star system”. Mas eis que reaparece o namorado anterior de Veronica”¦

Deixo ao espectador o prazer de se comover com a história. E me pergunto: o que faz com que, apesar da separação dos amantes, um amor não acabe?

Às vezes, os amantes são afastados por uma força maior: o deslocamento obrigatório de um deles e a impossibilidade de o outro acompanhá-lo –mudanças inevitáveis, uma doença, a morte”¦

Ou, então, a separação acontece pela renúncia de um dos dois, que entende seu gesto como heroico –como quando alguém sacrifica seu amor para cuidar da velha mãe ou das crianças pequenas.

Outras vezes, um dos amantes ou os dois se apaixonam por terceiros e, em vez de terminar sua história comum, eles não deixam de se amar (sim, é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo).

Outras vezes, ainda, um dos amantes desiste por comodismo e conforto, e os dois passam a vida lamentando essa escolha.

Enfim, amores inacabados fazem parte da história de todos ou quase. E essas paixões interrompidas se tornam o símbolo das vidas nas quais, quem sabe, teríamos sido outros do que somos.

Mas os amores inacabados não têm nada a ver com a esperança do novo, do inédito. Eles são o lamento dos caminhos dos quais desistimos.

Quando pensamos neles (ou quando eles reaparecem na realidade), eles funcionam como exercícios (teórico-práticos) contra a continuidade e a previsibilidade de nossa vida, como lembretes de uma liberdade possível desperdiçada.

A primeira lei de Newton diz que uma massa sempre tende a continuar seu movimentando em linha reta e com velocidade constante.

A gente não é apenas uma massa: obedecemos ao princípio de inércia, amamos a repetição, mas, ao mesmo tempo, vige para nos uma espécie de primeira lei da psicodinâmica, segundo a qual estamos sempre sonhando com um movimento que seja uma exceção à lei da inércia.

Um amante gravita como um planeta ao redor do seu sol, que é o objeto amado. O movimento do amante é curvilíneo por causa da força centrípeta que puxa o amante em direção de seu amado. Se não fosse por essa força centrípeta, todos estaríamos avançando sozinhos, nas nossas trajetórias retilíneas. Em tese, para sair da órbita do amado, o amante poderia encontrar uma outra força centrípeta que o atraísse mais.

Para se liberar de um amor, seria preciso encontrar outro. Mas não é só o novo que nos liberta: o passado também tem essa função. Sem recorrer a um novo amor, todos conhecemos o charme da ideia de sair de órbita, de sair do círculo.

A segunda lei da psicodinâmica é o charme da tangente, que pode ser alimentado pelo espírito de aventura e pela paixão do novo, mas também pela nostalgia dos amores inacabados –ou seja, dos rumos que não tomamos nas encruzilhadas da vida.

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Contardo Calligaris

Os benefícios de escrever um diário

Benefícios de Escrever um Diário

Benefícios de Escrever um Diário

 

Em uma era em que os 140 caracteres dos tweets quase viraram um limite para a escrita, a ciência resolveu recorrer a uma velha receita do passado. Os diários estão voltando à moda como forma de ajudar a saúde física e mental. O hábito de pegar aqueles pequenos cadernos para relatar todos os dias o que ocorreu na vida, anotar os pensamentos ou simplesmente desabafar está se tornando uma ferramenta de extrema utilidade para os psicólogos, psicanalistas e, naturalmente, para os seus pacientes.

Essa tradição é bastante antiga. Registros históricos mostram que diários eram mantidos no Japão desde o século X. Muitas figuras famosas utilizaram essa prática. Talvez o mais conhecido deles seja o de Anne Frank, a garota de 13 anos que escreveu cartas para uma amiga imaginária sobre a perseguição nazista durante a Segunda Grande Guerra Mundial.

Porém, a busca da fama não está entre os benefícios que serão encontrados pelas pessoas a quem os terapeutas indicam mergulhar nesse hábito. Veja a seguir os motivos que podem fazer com que escrever um diário seja bom para sua saúde.

Escrever regularmente melhora o estado mental

Estudo publicado pela revista Advances in Psychiatric Treatment (Avanços no Tratamento Psiquiátrico) revelou uma ampla pesquisa sobre o tema realizada pela Universidade de Iowa. De acordo com o artigo, os pesquisadores constataram que os indivíduos analisados que escreveram sobre seus eventos traumáticos, situações de estresse ou qualquer situação que tenha feito aflorar mais fortemente suas emoções durante 15 a 20 minutos de três a cinco vezes por semana conseguiram superar com maior facilidade esses acontecimentos do que aqueles que não tiveram essa atitude.

O benefício constatado foi ainda maior em pessoas que sofriam de doenças graves, como o câncer, por exemplo. Até mesmo um centro de terapia chegou a adotar o uso de diários como prática auxiliar no tratamento da saúde mental de seus pacientes. Além disso, a escrita diminui sintomas de depressão, ansiedade, pânico e abuso de substâncias (inclusive as proibidas).

Processo ajuda a despertar a criatividade

Escrever sobre as experiências não apenas ajuda a pessoa a processá-las melhor, mas ainda auxilia e aprimorar o próprio texto. Afinal, escrever com frequência é a maneira mais eficiente de aumentar a qualidade do conteúdo escrito. A regularidade ajuda a elaborar melhor as frases, desenvolver ideias complexas, memorizar informações importantes e despertar a criatividade.

Diário serve como lembrete de erros e acertos

Ao relatar sua vida nas páginas de um diário você estará garantindo uma lembrança dos erros que cometeu e das realizações de que se orgulha, de grandes momentos que merecem ser recordados no futuro. Isso pode ser bastante útil em fases da vida quando se sentir perdido, sem direção e precisar fazer uma reavaliação. As conquistas poderão aumentar sua autoestima mostrando o que já foi obtido ao longo de sua vida. No campo profissional, as anotações podem servir de base para relatórios, pedidos de aumento salarial, promoções ou mesmo correção de rumos.

Clarifica seus sentimentos e pensamentos

Colocar no papel tudo que você sente pode ajudar, depois que a tempestade emocional passar, a analisar melhor os sentimentos e dar uma ideia mais clara sobre seus sentimentos e pensamentos. Isso aumentará o autoconhecimento e também ajudará na resolução dos problemas de maneira mais eficaz, inclusive, no caso de desentendimento com outras pessoas.

Traz benefícios para a saúde física

Os benefícios para a saúde mental afetam diretamente o corpo. Indivíduos que escrevem diários geralmente apresentam melhora também no sistema imunológico, nas funções do fígado, do pulmão e a pressão arterial é reduzida.

Primeiro passo é escolher a mídia correta

A primeira medida é escolher a mídia. Os mais tradicionalistas devem optar pelo bom e velho caderno de papel. Com ele você apreciará o sentimento físico de escrever. Ele lhe dará também controle sobre o conteúdo uma vez que o objeto poderá ser guardado, ou escondido, e só será exibido se for esse o seu desejo. A não ser que você faça cópias com frequência, o que é algo bastante incomum, o ponto negativo é que não existe backup. Se o caderno for perdido ou danificado, o diário se vai para sempre.

Outra opção é escrever em seu computador pessoal ou guardar os textos em sistemas de armazenamento por nuvem que podem ser acessados por dispositivos móveis. Isso dá mais segurança aos dados, uma vez que são gravados e possuem backup, mas sempre há a possibilidade de que sejam acessados por hackers e nunca há o contato direto na hora de escrever, pois os textos são digitados na tela de um laptop, Ipad ou telefone celular.

Uma forma cada vez mais popular de diários são os blogs. Porém, nesse caso, não há qualquer expectativa de privacidade. Muito pelo contrário. Todo o conteúdo é escrito para ser lido por terceiros e, nesse caso, também fica disponível para ser comentado. É preciso estar preparado para receber as respostas, que nem sempre serão positivas.

Como escrever um diário

Existem alguns procedimentos básicos para que a escrita de um diário realmente seja benéfica para a saúde. O primeiro deles é realizar isso de maneira frequente. É preciso exercitar diariamente a colocação dos pensamentos no papel ou no computador. Só assim a criatividade e o confronto entre os sentimentos e emoções irão sendo explorados.

De acordo com um estudo realizado em 2012 pela Universidade de Toronto, no Canadá, a melhor opção é começar o dia escrevendo no diário. Isso se deve ao fato de as pessoas estarem mais otimistas pela manhã. Expressar seus pensamentos nessa parte do dia pode ajudar a começar suas atividades de maneira mais clara.

Nunca edite seus textos. Escreva livremente sem preocupações com correções gramaticais, sobre o melhor uso das palavras ou do peso que elas possam ter para outras pessoas. O diário é para você e mais ninguém. Isso pode levar algum tempo, todavia, uma vez que se acostumar a escrever sem limitações os seus verdadeiros sentimentos irão florescer.

Escreva tudo, de bom e de ruim, inclusive o horroroso. É importante ter a recordação dos melhores momentos de sua vida, das conquistas, de tudo que você fez de bom e o deixou alegre. Mas para uma autoavaliação, o diário precisa ter também o outro lado. Por isso, não pode ser seletivo, necessita ser um reflexo de sua vida.

Canal no Youtube

Oi gente,

Comecei um canal no Youtube! Corram lá, comentem, mandem sugestões. Sobre o quê vocês gostariam de saber?

 

PS: reparei que tem umas faixas pretas do lado do vídeo e já descobri que é lance da proporção do arquivo. Já tô tomando providências pra fazer o próximo direitinho. ;)

Uma solitária voz humana

VOZES
[trecho do livro de Svetlana Alexiévitch, Vozes de Tchernóbil]

Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê? Estávamos casados havia pouco tempo. Ainda andávamos na rua de mãos dadas, mesmo quando entrávamos nas lojas. Sempre juntos. Eu dizia a ele “eu te amo”. Mas ainda não sabia o quanto o amava. Nem imaginava… Vivíamos numa residência da unidade dos bombeiros, onde ele servia. No segundo andar. Ali viviam também três famílias jovens, e a cozinha era comunal. Embaixo, no primeiro andar, guardavam os carros, os carros vermelhos do corpo de bombeiros. Esse era o trabalho dele. Eu sempre sabia onde ele estava e o que se passava com ele. No meio da noite, ouvi um barulho. Gritos. Olhei pela janela. Ele me viu: “Feche a persiana e vá se deitar. Há um incêndio na central. Volto logo”.

A explosão, propriamente, eu não vi. Apenas as chamas, que iluminavam tudo… O céu inteiro… Chamas altíssimas. Fuligem. Um calor terrível. E ele não voltava. A fuligem se devia à ardência do betume, o teto da central estava coberto de asfalto. As pessoas andavam sobre o teto como se fosse resina, como depois ele me contou. Os colegas sufocavam as chamas, enquanto ele rastejava. Subia até o reator.

Arrastavam o grafite ardente com os pés… Foram para lá sem roupa de lona, com a camisa que estavam usando. Não os preveniram, o aviso era de um incêndio comum…

Quatro horas… Cinco horas… Seis… Nós tínhamos combinado de ir às seis horas à casa dos pais dele, para plantar batatas. Da cidade de Prípiat até a aldeia Sperijie, onde viviam, são quarenta quilômetros. Nós íamos lá semear, arar… Era o trabalho favorito do meu marido… A mãe dele sempre se lembra de que ela e o pai não queriam deixá-lo ir para a cidade, chegaram a construir uma casa nova. Mas ele foi convocado pelo Exército. Serviu em Moscou nas tropas dos bombeiros e quando voltou só queria ser bombeiro. Nada mais. (Silêncio.)

Às vezes parece que escuto a voz dele… Que está vivo… Nem as fotografias me tocam tanto quanto a voz dele. Mas ele nunca me chama. Nem em sonhos… Sou eu que o chamo…

Sete horas… Às sete horas me avisaram que ele estava no hospital. Corri até lá, mas havia um cordão de policiais em torno do prédio, ninguém passava. As ambulâncias chegavam e partiam. Os policiais gritavam: “Os carros estão com radiação, não se aproximem”. Eu não era a única, todas as mulheres cujos maridos estavam na central naquela noite vieram correndo, todas. Quando vi saltar de um carro uma conhecida que trabalhava como médica no hospital, corri e a segurei pelo jaleco:

“Me deixe entrar!”

“Não posso! Ele está mal. Todos estão mal.”

Agarrei-a com força:

“Só quero ver o meu marido.”

“Está bem”, ela disse. “Vamos correr. Mas só por quinze, vinte minutos.”

Eu o vi… Estava todo inchado, inflamado… Os olhos quase não apareciam…

“Ele precisa de leite. Muito leite!”, ela me disse. “Eles devem beber ao menos três litros.”

“Mas ele não bebe leite.”

“Agora vai ter de beber.”

Muitos médicos, enfermeiras e, sobretudo, as auxiliares daquele hospital, depois de algum tempo, começaram a adoecer. Mais tarde morreriam. Mas na época ninguém sabia disso…

Às dez horas da manhã morreu o técnico Chichenok… Foi o primeiro… No primeiro dia… Logo soubemos de outro que tinha ficado debaixo dos escombros, Valera Khodemtchuk. Não conseguiram retirá-lo, foi emparedado no concreto. Mas ainda não sabíamos que estes seriam apenas os primeiros.

Perguntei:

“Vássienka, o que é que eu faço?”

“Vá embora daqui! Vá embora! Você vai ter um filho.”

Eu estava grávida. Mas como deixá-lo? Ele suplicava:

“Vá embora! Salve a criança!”

“Primeiro eu vou te trazer leite, depois decidimos.”

Então, a minha amiga Tânia Kibénok chegou… O marido também estava nessa mesma enfermaria. Ela veio com o pai de carro e partimos juntas para a aldeia mais próxima, que ficava a uns três quilômetros da cidade. Compramos várias garrafas de três litros de leite. Umas seis garrafas, que dessem para todo mundo… Mas o leite provocou vômitos terríveis, eles perdiam os sentidos, e por isso os puseram no soro. Os médicos, por algum motivo, nos afirmavam que eles tinham se envenenado com gases, ninguém falava em radiação.

No entanto, a cidade ficou lotada de veículos militares, todas as estradas foram fechadas. Havia soldados por toda parte. Os trens regionais e expressos pararam de circular. As ruas eram lavadas com uma espécie de pó branco… Fiquei assustada: como iria, no dia seguinte, à aldeia comprar leite fresco? Ninguém falava em radiação, só os militares circulavam com máscaras respiratórias… As pessoas compravam os seus pães, saquinhos com doces e pastéis nos balcões… A vida cotidiana prosseguia. Só que… as ruas eram lavadas com uma espécie de pó…

À noite, já não me deixaram entrar no hospital. Havia um mar de gente ao redor… Fiquei em pé debaixo da janela da enfermaria; ele se aproximou e gritou alguma coisa para mim. Parecia desesperado! Alguém na multidão entendeu o que ele disse: seriam levados àquela noite para Moscou. Todas nós, esposas, nos juntamos. Decidimos: vamos com eles. “Que nos deixem ir com os nossos maridos!

Vocês não têm direito!” Lutamos, nos atracamos com os soldados, que já haviam formado um cordão duplo e nos empurravam. Foi então que um médico surgiu e  confirmou que os doentes seriam levados de avião para Moscou, e que era preciso roupas para eles, pois as usadas na central haviam sido queimadas. Os ônibus já não circulavam, então atravessamos a cidade correndo. Quando finalmente voltamos com as sacolas, o avião já tinha partido. Fomos enganadas de propósito. Para evitar que gritássemos, que chorássemos…

Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko

 

Aqui no Brasil, o livro foi publicado pela Companhia das Letras.

O remédio é escrever

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Cientistas e escritores conhecem, há anos, os benefícios terapêuticos de escrever sobre experiências pessoais, pensamentos e sentimentos. Além de servir como um mecanismo para aliviar o stress, expressar-se por meio da escrita traz muitos benefícios fisiológicos. Pesquisas mostram que com a prática da escrita é possível aprimorar a memória e o sono, estimular a atividade dos leucócitos e reduzir a carga viral de pacientes com aids e até mesmo acelerar a cicatrização após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Oncologist mostra que pessoas com câncer que escreviam para relatar seus sentimentos logo depois, se sentiam muito melhor, tanto mental quanto fisicamente, em comparação a pacientes que não se deram a esse trabalho.*

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Por quê?

É um ato de coragem colocar para fora o que se sente e pensa. Enfrentar a folha em branco, ou a tela, e ir devagar e sempre criando um sentido – ou desfazendo sentidos.

Escrever, ao contrário de falar, é uma atividade solitária. É preciso ter tempo para ficar sozinho. Escrever nos permite ter autoconsciência, que por sua vez significa reflexão. Grafando as palavras em um objeto externo, podemos olhar o que temos pensado como podemos olhar para nós mesmos no espelho.

Escrever é uma maneira eficaz de superar situações difíceis, a partir do momento que a pessoa manifesta suas angústias e sofrimentos. “Assim como as crianças, adultos traumatizados precisam atribuir significados às experiências dolorosas, para conseguirem explicar o que ocorreu. À medida que buscamos palavras para descrever alguma situação, conseguimos reestruturar o trauma, processar os sentimentos envolvidos na história e, finalmente, superá-la. E isso tem um natural impacto positivo na saúde”, explica.

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Escreva com regularidade. Os antigos diários, como o próprio nome já indica, são alimentados todos ou quase todos os dias. Pode ser um diário virtual (um blog) ou um caderninho. Que tal manter um bloco de notas ao lado de sua cama? É bom colocar coisas que nos incomodam para fora. O ato de escrever ajuda a aliviar a ansiedade e deixa a mente descansar um pouco, tirando um pouco do peso das preocupações de lado. Inclusive, aproveite esse momento para pensar o que ocorreu no dia, mas finalizando com pensamentos positivos.

Não se prenda às regras ao escrever. Escreva o texto primeiro, respeitando o fluxo de pensamentos, e só depois revise. Como diria um autor famoso que esqueci quem é agora: “escreva com vinho, revise com café”.

Boas palavras!
*Fonte: Revista Mente & Cérebro, 2008

Off Flip

Seu barato é a poesia? Vai estar na Flip 2016? Já ouviu falar no Haicai Combat?

Seguinte, gente:
O Haicai Combat é um desafio entre poetas, que deverão recitar poemas curtos, sempre AUTORAIS.

É preciso que cada poeta leve TRÊS POEMAS CURTOS, para que possa duelar nas três etapas (eliminatória, semifinal e final). Os poemas devem seguir a forma do gênero haicai ou ser compostos por no máximo 4 versos livres e curtos.

Os cinco melhores poetas, eleitos pelos jurados, seguirão para a semifinal, realizada logo em seguida, e cada poeta terá que recitar outro poema curto. De onde sairão os dois melhores, para a grande final, quando cada um recitará mais um poema curto.

O grande vencedor ganhará um kit com livros, entre outros prêmios.

O júri será formado por pessoas que serão escolhidas ali, na hora, em meio ao público, que darão notas aos poetas, tanto na fase eliminatória como na semifinal. E a cada edição, haverá um convidado para atuar como juiz em caso de empate, em ambas as fases. Já na fase final, não haverá pontuação por notas, quem tomará a decisão sobre o poeta vencedor será o juiz.

As inscrições poderão ser feitas através dos eventos criados na página do Haicai Combat.

Curta a página:

https://www.facebook.com/HaicaiCombat

Idealização e produção: Marcos Bassini e Yassu Noguchi

Fragmentos inéditos de ‘José e Pilar’, filme de Miguel Gonçalves Mendes

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Seis anos depois da morte de Nobel da Literatura portuguesa José Saramago, a Fundação José Saramago apresenta-nos agora, através do Youtube, o primeiro volume de Fragmentos de ‘José e Pilar‘, um conjunto de inéditos das 240 horas de filmagem captadas pela equipe do realizados Miguel Gonçalves Mendes durante os quatro anos que estiveram a produzir o documentário.

O filme estreou em 2010, no mesmo ano em que faleceu José Saramago, e é um sucesso desde então entre os leitores do escritor, e agora temos o privilégio de nos alongarmos nesta experiência cinematográfica através deste primeiro vídeo:

Das vantagens de ter um caderno

 

CADERNO

Todos os grandes escritores tiveram ou têm um e todos os aspirantes a escritores também devem ter. O quê? Um caderno de escrita! Mesmo vivendo numa era 100% digital, não há nada como manter um caderno ou diário de escrita. Seja um Moleskine ou um velho caderno.

Registro de ideias preciosas

Quantas vezes você não teve uma ideia ótima para um texto enquanto estava no metrô? Quantas vezes já conseguiu escrever, na cabeça, uma ou duas frases inesquecíveis para um livro enquanto esperava no consultório médico? E quantas vezes não perdeu essas mesmas ideias porque não as anotou nesse exato momento? É precisamente aqui que se revela a importância de um caderno de escrita – uma ferramenta valiosa para qualquer escritor e que deve acompanhá-lo onde quer que esteja. Para além de registar as suas melhores ideias, o caderno de um escritor também pode servir para anotar projetos futuros, partes de uma conversa que acabou de escutar ou funcionar simultaneamente como um diário onde desabafa através da palavra escrita. Para um escritor, tudo isto pode ser uma ideia ou uma inspiração para o futuro.

Fonte de inspiração

Um caderno de escrita bem preenchido torna-se numa fonte de inspiração inesperada, afinal está recheado de palavras escritas por si, cenas engraçadas às quais assistiu, citações, palavras motivadoras, diálogos que ouviu, ideias para futuros artigos ou livros – basta abrir o caderno e ler, muitas vezes o brainstorming já lá está. O caderno do escritor torna-se especialmente útil naqueles momentos de bloqueio criativo (ou writer’s block), quando a inspiração não chega e aparece aquela dificuldade para começar a escrever.

Praticar a escrita

O próprio ato de escrever num caderno estimula o cérebro, faz pensar, sonhar, ser criativos. Para escrever temos de fazer tudo isso. Ao manter um caderninho de escrita, mesmo anotando apenas uma ou duas palavras por dia, você vai manter em forma seu “músculo da escrita” e como em tudo, a prática traz a perfeição. Além disso, só o fato de você se saber “munido” de um guardador de ideias.

Outra vantagem: cadernos são LINDOS. Desde o mais básico moleskine ao bloquinho espiral. Dos cadernos que não temos coragem de usar aos que são aproveitados até o fim. Cadernos são lindos.)

O que é ESCRITA CRIATIVA

Apresentando a escrita criativa

 

 

O Universo

 

 

universo

Pense em uma página vazia como o espaço sideral. Ele não possui nenhuma dimensão; ali, o tempo humano não faz nenhuma reivindicação. Tudo é possível neste momento, interminavelmente possível. Tudo, tudo mesmo, pode crescer nele. Qualquer pessoa, real ou imaginária, pode viajar para lá, ficar parada, ou seguir em frente. Não há restrição, exceto a honestidade do escritor e do escopo da imaginação – qualidades com as quais nascemos e características que podemos desenvolver. Escritores podem ser natos ou construídos.

Poderíamos dar forma a um mundo inteiro neste espaço da folha em branco, ou mesmo encaixar nele vários mundos, suas latitudes e longitudes, universos paralelos. Se preferíssemos, poderíamos colocar apenas umas poucas palavras ali, apenas o suficiente delas para mostrar a presença da vida da linguagem.

Ao escolher agir, escrevendo nessa página, estamos criando uma outra versão de tempo; estamos criando uma nova versão da existência, da vida mesmo.

 

 

Por que escrever

 

 

escrever_criativamente

A escrita é tão absorvente e envolvente que ela pode fazer você se sentir mais vivo, mais concentrado, até eufórico. O processo centra, ao mesmo tempo que distrai; a rotina é viciante.

Muitas vezes o processo de escrita é até mais gratificante do que o resultado, mas, quando você captura algo luminoso ou tem aquele insight, aquela sensação de descoberta e de maravilha, ela nada através das palavras e dá piruetas na página. Há um prazer em encontrar a precisão em uma descrição, em narrar determinada situação ou elaborar um sentimento.

 

grifei num livro

(Quem nunca sublinhou aquelas frases que dizem exatamente aquilo que você pensava mas ainda não havia conseguido encontrar as palavras certas? A imagem acima é do Tumbrl “Grifei num Livro”, e o trecho é de A Sombra do Vento, do Carlos Ruiz Zafón)

 

Alguns escritores acham a própria prática da escrita terapêutica; e alguns professores da escrita acreditam que escrever é uma poderosa ajuda a vários tipos de terapia, do tratamento da depressão a reabilitação social. Mais precisamente, a escrita pode contribuir para o autodesenvolvimento e autoconhecimento. A escrita te acorda – ela força você a enxergar além de sua inteligência e atenção cotidianas – e qualquer coisa que faz você pensar e perceber com mais clareza e expansivamente o mundo e as pessoas torna você mais sábio, certo? O exercício de escrever oferece novas perspectivas de encontrar a si mesmo e compreender os demais.

Sim, às vezes você vai se sentir completamente impotente, como se a linguagem nunca tivesse existido em você ou para você. Há tempestades e bonanças no ofício de escrever.

 

Você pode se tornar um bom escritor,
assim como você pode se tornar um bom carpinteiro:
em ambos os casos trata-se de aparar arestas ” – Anatole France

 

Escrever é reescrever, e o personagem do escritor é reescrito pela atividade de escrita e reescrita. Se você está interessado na energia da linguagem, ao invés de simplesmente sonhar em “ser um escritor”, então você tem uma boa chance de se tornar um escritor.

Pense que o universo é uma página em branco; até você começar a escrever nela.


[Escrita Criativa é escrever.]

 

Ficou com vontade de começar? Clica aqui: vai ter turma nova em junho!

* Texto adaptado de “The Cambridge Introduction to Creative Writing”, de David Morley

Tem coisa que só sai da gente por escrito

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“Quando se escreve, a gente se situa na fronteira daquilo que não é possível de ser dito. Essa é experiência da escrita. Existem coisas que não consigo dizer, mas continuo escrevendo. Quando escrevemos, é possível abrir um caminho.” Catherine Millot

A matéria completa com a psicanalista, que fala sobre a experiência da escrita, pode ser conferida aqui e aqui: Catherine Millot, psicanalista e escritora_ ‘Escreve-se o que não pode ser dito’ – Jornal O Globo.

 

Então você pensa em escrever ficção?

Vamos começar tentando responder à pergunta: “O que faz uma BOA HISTÓRIA?”

Um leitor sempre espera alguma coisa de um texto: uma experiência emocional. Eles querem sentir alguma coisa, profunda e completamente. Quando você falha ao entregar essa experiência, o poder do seu texto diminui muito, independente de ser uma boa história ou os personagens serem fascinantes.

Você já ouviu falar nos Cinco Pilares da Ficção? São eles:

– Cenário
É o “lugar” onde se passa a história. Inclui a geografia, a população, a flora, a fauna, o contexto histórico, político, econômico, as comidas, linguagens etc. Alguns gêneros exigem que você crie todo um mundo (procurem pelo ótimo “Dicionário de Lugares Imaginários” para saber mais), em outros você pode assumir que estamos no nosso próprio mundo.

Seja qual for seu cenário, ele precisa seduzir e convencer o leitor.

Holly Golightly - Truman Capote

Holly Golightly (Audrey Hepburn no cinema) – das páginas de um livro do Truman Capote*

(Pra quem não sabe: “Bonequinha de Luxo”, antes de ser o filme que virou depois, é um livro escrito por Truman Capote.)

– Personagens
Os personagens precisam ter suas próprias histórias, ambições, desejos e valores. É esse esboço psicológico dos personagens que permitirá que você conflitos. Já pensou que na maioria dos livros que já leu, você sentiu empatia por ao menos um dos personagens? Ou, pelo menos torceu por algum deles?
– Enredo
São os acontecimentos que movem sua história para frente. Essas ações precisam ter significado para ao menos algum dos personagens da sua história, atrapalhando ou ajudando o o personagem a chegar no seu objetivo.

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Ilustração de Alice no País das Maravilhas, a protagonista com o coelho branco e o chapeleiro maluco

– Tema
O que o livro quer dizer por trás da história? Pode ser algo profundo, ou simples como “todos precisam ser amados” ou “o crime não compensa”.

 

– Estilo
É a forma única de cada escritor se expressar. Um misto de personalidade, voz, tom, inteligência, senso de humor…
O estilo é algo que se faz com o tempo. Escrevendo muito você começa a perceber sua própria forma de dizer as coisas. Aí também está o que chamamos de “voz narrativa”. E ponto de vista também. Sob a ótica de quem você vai contar esta história? Um observador envolvido na história? Ausente? É o protagonista que vai contar a história? Responder a estas perguntas ANTES de começar a escrever ajuda; e muito. Experimente!

 

(Desafio: relembre os últimos livros que você leu. Você gostou? Consegue definir onde cada um dos pilares se encaixa no último livro que você leu?)

Concurso Lapalê

O Lapalê vai lançar uma antologia com histórias e ensaios sobre o samba, em homenagem ao produtor Lefê Almeida. Você pode ser um dos autores!

Inscreva seu conto inspirado no samba ou na Lapa ou ainda um ensaio sobre algum aspecto — personagem, música, momento histórico ou lugar — do mais carioca dos ritmos, no bairro que é a essência do Rio. Mande para a gente usando o formulário ao lado. Serão escolhidos dois contos e dois ensaios para integrar a edição. Os autores selecionados serão convidados de honra para a festa de lançamento do livro e participarão de uma das mesas do Lapalê.

A seleção ficará por conta da equipe Lapalê. As inscrições vão até o dia 15 de abril e os autores selecionados serão revelados no lançamento do livro, no LAPALÊ.

REGULAMENTO COMPLETO E O FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO Os textos selecionados serão a) contos ou crônicas inspirados ou evocativos do samba, sem restrição de corte histórico ou cultural ou b) ensaios ou reportagens sobre aspectos históricos, culturais, sociais ou econômicos do samba. Terão preferência os contos e ensaios que tratarem ou estiverem relacionados a aspectos do bairro da Lapa. Os textos devem ter entre 2 e 5 laudas (4.000 a 10.000 toques) e devem ser inéditos em livro, mas podem ter sido publicados em blogs ou outros meios.

CONDIÇÕES DE INSCRIÇÃO Ao clicar em “enviar” você expressa sua concordância à publicação em meio digital e impresso do texto submetido e assume a titularidade do mesmo, isentando a Ímã Editorial e o LAPALÊ de responsabilidade sobre quaisquer demandas de direitos autorais por terceiros. A seleção dos textos é decisão soberana da curadoria, respeitando os critérios publicados, não cabendo apelos ou objeções. Ao submeter seu texto e dados pessoais, também está acordando na cessão temporária e onerosa de direitos autorais mediante regime Creative Commons BY NC SA recebendo royalties pro rata.

O Lapalê é um festival sobre a Lapa, Literatura, Entusiasmo! Um encontro de artistas, historiadores, escritores e pensadores que terá sua segunda edição realizada no mês de maio de 2016, nos Arcos da Lapa. Saiba mais aqui.

Antologia do Clube de Autores no ar… de graça!

Nosso Clube de Autores

Oi gente, em 2014 fizemos nosso primeiro CLUBE DE AUTORES. Durante um ano nos reunimos para discutir literatura e produzir textos. O resultado? Um livro! E por enquanto, de graça, pra vocês.

Nossa ANTOLOGIA do Clube de 2014 está em promoção, no Kindle Unlimited, na Amazon, por tempo limitado. Quer saber como a gente trabalha? Sobre o quê a gente escreve? Bem, dá pra ter uma boa ideia do que é a Oficina por lá.

Clica aqui pra ver (e ler!)!

 

Roteiro Literário pelas estátuas do Rio de Janeiro

O CAMINHO DAS ESTÁTUAS LITERÁRIAS NO RIO DE JANEIRO

Drummond na orla de Copacabana, Bandeira e Machado na ABL e Lima Barreto na Lapa. Vem ver nosso roteiro das estátuas literárias pelo Rio de Janeiro

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Drummond em Copacabana (foto: Blog Estrela Binária)


Na primeira vez que fui ao Rio, um dos lugares da minha listinha de visitação era a estátua de Drummond na orla de Copacabana. Ela estava lá, uma singela estátua, concorrendo deslealmente com outros pontos turísticos famosos como Santa Tereza, a confeitaria Colombo ou os Arcos da Lapa.

Eu não sei explicar ao certo o que acontece, mas as estátuas tem esse poder de atração sobre os turistas – e não só os turistas-literários. A mais recente do Rio, por exemplo, a estátua do Tom Jobim ali no Arpoador, já tem seus fãs e suas fotos espalhadas pelas redes sociais.

Drummond fica sentadinho num banco no canto da praia, na Avenida Atlântica, altura do posto 6, perto do Forte de Copacabana, de pernas cruzadas e costas pro mar. No banco, o verso talhado: “No mar estava escrita uma cidade”.

Mapa: Drummond em CopacabanaA obra é uma homenagem do Rio de Janeiro ao centenário do poeta e é o segundo monumento público mais visitado da cidade, perdendo apenas para o Cristo Redentor.

Mineiro de Itabira, o poeta se apaixonou pelo Rio de Janeiro quando mudou pra lá na década de 1930.

Aqui
amanhece como em qualquer lugar do mundo
mas vibra o sentimento
de que as coisas se amaram durante a noite.
(Retrato de uma Cidade, Discurso de Primavera, 1977)

 

Drummond vivia em Belo Horizonte depois de ter saído de sua cidade natal aos 17 anos para estudar. Foi no colégio em BH que conheceu Afonso Arinos de Melo Franco e Gustavo Capanema. Este último amigo, Capanema, foi quem o convidou para viver perto do mar, no Rio. Capanema  assumiu o Ministério da Educação e Saúde Pública e chamou Drummond para ser seu chefe de gabinete.

Foto original do poeta na orla carioca (Acervo CDA/Cosac Naify/Divulgação)

Foto original do poeta na orla carioca (Acervo CDA/Cosac Naify/Divulgação)

Junto com a esposa Dolores e a filha Maria Julieta, moraram inicialmente na Av. Princesa Isabel numa casa de vila, perto do Túnel Novo. Seu último endereço, antes de falecer, era o número 60 da Rua Conselheiro Lafaiete, em Copacabana. Nesse intervalo, a família também morou Rua Joaquim Nabuco 81, que ficava perto da praia, do Arpoador.

O que se conta é que Drummond costumava levar a família para o mergulho no mar. E há também outras histórias curiosas, como a relatada por Fernando Sabino. O escritor conta que passava em frente ao sobrado da rua Joaquim Nabuco e costumava chamar Drummond com um assobio. Da calçada, Sabino conseguia ver o poeta lá dentro, em pânico, tentando se esconder atrás de algum móvel enquanto sobrava para a esposa Dolores a tarefa de avisar ao amigo na calçada que “o Carlos tinha saído”. Sabino achava graça e sabia que Drummond devia estar escrevendo ou lendo alguma coisa.

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O pernambucano Bandeira na ABL

Mas não é só o escritor mineiro que ficou eternizado na cidade. O Rio ainda tem os pernambucanos Manuel Bandeira eJoaquim Nabuco em bronze, em frente àAcademia Brasileira de Letras. Nabuco foi um dos fundadores da academia.

E, claro, que o bruxo do Cosme Velho não poderia faltar nessa seleção. Machado de Assis atrai turistas e leitores para o pátio da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o fundador e o primeiro presidente. Ele é o dono da cadeira n° 23 da instituição.

O bruxo do Cosme Velho na ABL (Foto: Rio Film)

O bruxo do Cosme Velho na ABL (Foto: Rio Film)

O número 18 da Rua Cosme Velho, no bairro de Laranjeiras, foi o endereço em que Machado morou depois que se casou com a portuguesa Carolina, seu primeiro e único amor. Mas, infelizmente, a casa já foi demolida.

Serviço ABL
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Otto Lara Resende numa esquina do Jardim Botânico

O Padre Antônio Vieira e Otto Lara Resende são outros dois imortais do bronze. O escritor e orador da Companhia de Jesus ganhou uma estátua no jardim daPUC do Rio de Janeiro, no bairro da Gávea. O monumento foi uma doação da Prefeitura de Lisboa em retribuição ao busto do escritor Machado de Assis, doado aos portugueses em 2008.

A estátua de Otto Lara Resende respira o ar puro do Jardim Botânico . Ele fica numa esquina, próximo a um ponto de ônibus, como se esperasse os visitantes com um livro na mão e os convidassem a sentar em escritório reproduzido ali.

Na Lapa, na altura do número 126 da Rua do Lavradio, há também uma  homenagem ao jornalista e escritor Lima Barreto, autor de O Triste fim de Policarpo Quaresma. A obra foi instalada na rua onde o escritor morou.

O próximo escritor a ser eternizado é João Ubaldo Ribeiro. Uma estátua em tamanho real passará a ocupar, ainda no primeiro semestre de 2015, a Praça Antero de Quental, no Leblon. Foi nesse bairro que o escritor morou por 20 anos até sua morte, em julho de 2014.

Projeto da homenagem a Ubaldo, no Leblon

Projeto da homenagem à Ubaldo

Rio, cidade dos escritores

A história da cidade do Rio se confunde também com a de muitos escritores. A Lapa, por exemplo, local dos cortiços, jogatina e cabarés, foi a moradia do poeta Manuel Bandeira, que, em 1933, se mudou para a Rua Moraes e Valle, em frente ao Beco das Carmelitas, imortalizado no Poema do Beco. Ali, ele também escreveu os poemas de “Estrela da Manhã” (1936) e “Lira dos Cinquenta Anos” (1940).

Para falar dos mais contemporâneos, o Rio foi casa de Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes e tantos outros. Mas isso rende um outro post :)

PARA LER:

  • Discurso de Primavera e Algumas Sombras (Companhia das Letras), de Carlos Drummond de Andrade: publicado em 1977, quando Drummond estava com setenta e cinco anos, este livro não é, como se poderia esperar, a obra outonal de um escritor na terceira idade. Ainda vibrando com a vida e observando a passagem do tempo, o poeta publicou originalmente estes poemas na coluna que mantinha no Jornal do Brasil
  • O Triste fim de Policarpo Quaresma (L&PM), de Lima Barreto: publicado em 1911, é um clássico da literatura brasileira que denuncia os males da sociedade brasileira da época: a burocracia das repartições públicas, o clientelismo, a bajulação, a injustiça social, o problema da terra, etc
  • Noites Lebloninas (Alfaguara), de João Ubaldo Ribeiro: livro póstumo. O projeto, inacabado, seria composto por uma série de textos sobre a boemia carioca, mas o escritor terminou apenas dois dos contos antes de sua morte. Os cenários e os personagens do Baixo Leblon ganham vida nestes dois contos saborosos, narrados por um porteiro que tudo vê e tudo escuta.
  • Boca do Inferno (Companhia das Letras), de Otto Lara Resende: publicado originalmente em 1957, em um contexto em que a religião dita as regras, o autor traz à superfície os mais bem guardados baús dos porões da família mineira. As sete narrativas aqui reunidas têm como protagonistas meninos e meninas que, no fim da infância, são lançados de um momento para outro no conhecimento tenebroso das coisas.

Post original, aqui.

Um esforço de criatividade

Por Suzana Herculano Houzel

O cérebro cria com base em suas experiências pessoais, usando todo o material de que dispõe, fruto de aprendizados anteriores

Web

Elizabeth Gilbert é a autora mundialmente famosa por seu livro Comer, rezar, amar (Objetiva, 2008). Após sucesso tão estrondoso, qual seria a chance de deixar leitores igualmente contentes com um segundo livro? Em uma palestra no TED.com, muito articulada e divertida, ela fala da pressão por criatividade e sucesso… e explica que a criatividade não depende dela, pois é obra de um gênio externo que visita autores e artistas quando bem entende, por exemplo em pleno engarrafamento, quando não há papel e lápis ou laptop à mão.

Discordo veementemente. A criatividade depende, sim, de esforço próprio, e há muito que se pode fazer por ela.

Tome, por exemplo, um dos mestres da arte do improviso, uma das expressões máximas da criatividade: o pianista Keith Jarret, a quem tive o privilégio de assistir em concerto alguns anos atrás. O homem se senta ao piano, contempla o teclado por alguns instantes… e algo inédito sai de seu cérebro, em ligação direta com o piano. Como?

Improvisos não saem do nada: é preciso anos de treino e muito conhecimento musical para que algo fascinante e harmonioso saia a cada vez. Por outro lado, tocar com destreza e boa interpretação não bastam para improvisar.
Não é porque a criatividade exija a ativação de alguma outra parte não treinada do cérebro. Pelo contrário, a criatividade depende das mesmas regiões que são responsáveis pelos sentidos, pela memória, pelo reconhecimento de padrões – mas atuando de formas diferentes, inusitadas, livres do autocontrole que aprendemos a exercer o tempo todo.

Quando pianistas de jazz tocam de improviso dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional, fica claro que seu cérebro momentaneamente abre mão de controlar a si mesmo, com uma grande redução da atividade do córtex pré-frontal lateral. As porções sensório-motoras do córtex continuam a toda, acompanhando a música e gerando as próximas notas, enquanto aumenta a ativação do polo frontal do cérebro, que guarda nossa personalidade e história pessoal. Faz sentido; a improvisação é uma expressão altamente pessoal, emocional, e livre da história do músico que toca.

Improvisar, então, é associar informações de maneira livre do controle pré-frontal: é deixar o cérebro encontrar melodias de acordo com suas memórias, valores e emoções, sem o cerceamento pré-frontal. Aprender a criar, portanto, é aprender a deixar inertes os ímpetos controladores do córtex pré-frontal, enquanto o resto do cérebro cria com suas associações correndo soltas, naquele estado de “flow” em que a gente se descobre espectador das próprias ações.

Por outro lado, o cérebro cria com base em suas experiências pessoais, usando todo o material de que dispõe, fruto de aprendizados anteriores. Tudo o que vivemos, observamos e sentimos serve como elementos para o cérebro na hora da criação. Quanto mais ricas nossas experiências, maior é o leque de matéria-prima à disposição para a arte.

E criar, como todo o resto, também é algo que melhora com a prática, conforme se tenta e se aprende a ignorar o julgamento do próprio córtex pré-frontal (e o dos outros). Criar está ao alcance de todos, e como o resto, depende de esforço.

Em tempo: o segundo livro da autora não chegou nem aos pés do sucesso do primeiro. Mas acho que ela diria que foi culpa dos gênios…

Este artigo foi originalmente publicado na edição de Maio de Mente e Cérebro 2015.

Dicionário das Tristezas Obscuras

Criado pelo artista John Koening, o Dicionário das Tristezas Obscuras, é uma coleção de palavras inventadas, que servem para descrever as emoções que as pessoas sentem mas não conseguem explicar. A agonia de não existirem palavras para tudo é uma agonia comum a muita gente. Lacan, o famoso psicanalista, dizia que só é possível curar o que se pode denominar.

1. Adronitis
Frustrar-se com a quantidade de tempo necessário para se conhecer bem alguém.

2. Aimonimia
O medo de que aprender o nome de algo – um pássaro, uma constelação, uma pessoa bonita – vai estragar tudo. Transformando uma descoberta do acaso, em uma casca conceitual vazia.

3. Ambedo
Um tipo de transe melancólico no qual você se torna completamente absorto por pequenos detalhes sensoriais – pingos de chuva escorrendo pela janela, árvores altas se dobrando lentamente com o vento, espirais de creme se formando no café – o que, por fim, leva a uma avassaladora constatação da fragilidade da vida.

4. Anchorage
O desejo de segurar o tempo enquanto ele passa, como tentar se segurar em uma pedra no meio de um rio com muita correnteza.

5. Anecdoche
Uma conversa em que todo mundo está falando mas ninguém está ouvindo.

6. Anemoia
Nostalgia de um tempo no qual você nunca viveu.

7. Anthrodynia
Um estado de exaustão ao perceber o quão horríveis as pessoas podem ser umas com as outras.

8. Chrysalism
A tranquilidade confortável de se estar dentro de casa durante uma tempestade.

9. Ecstatic Shock
A onda de energia que surge ao olhar de relance para alguém que você gosta.

10. Ellipsism
Uma tristeza por não ser capaz de saber como a história vai terminar.

11. Énouement
A sensação agridoce de ter chegado no futuro, visto como tudo aconteceu, mas não ser capaz de contar para o seu ‘eu’ do passado.

12. Exulansis
A tendência de desistir de tentar falar sobre uma determinada experiência porque as pessoas são incapazes de se relacionar com ela.

13. Gnossienne
O momento em que você percebe que alguém que você conhece há anos tem uma vida interna, privada e misteriosa.

14. Jouska
Uma conversa hipotética que você repete compulsivamente na sua cabeça.

15. Kairosclerosis
O momento em que você percebe que está feliz – e tenta conscientemente aproveitar essa sensação – o que obriga seu intelecto a identificar e colocar a sensação em um contexto, onde a felicidade lentamente se dissolve até se tornar pouco mais do que um retrogosto.

16. Kenopsia
A atmosfera misteriosa e desamparada de um lugar que normalmente está cheio de gente, mas que agora está abandonado e quieto.

17. Lachesism
O desejo de ser atingido por um desastre – sobreviver a uma queda de avião, ou perder tudo em um incêndio.

18. Lalalalia
Dar-se conta, enquanto fala sozinho, que outra pessoa pode estar escutando, o que o leva a rapidamente transformar as palavras em algum cantarolar sem sentido.

19. Lapyear
A idade em que você se torna mais velha do que seus pais eram quando você nasceu.

20. Lethobenthos
O hábito de esquecer o quão importante uma pessoa é para você, até o momento em que você a encontra pessoalmente.

21. Liberosis
O desejo de se importar menos com as coisas.

22. Mimeomia
Frustração ao perceber o quão facilmente você se encaixa em um estereótipo.

23. Monachopsis
O sentimento sutil mas persistente de estar fora de lugar.

24. Moriturism
Perceber, como um solavanco durante um momento de insônia, que você vai morrer.

25. Nementia
O esforço que vem logo após um momento de distração, para lembrar porque é mesmo que você está se sentindo irritada, ou ansiosa, ou animada.

26. Nodus Tollens
Dar-se conta de que o roteiro da sua vida já não faz o menor sentido.

27. Occhiolism
Dar-se conta da pequenez da sua perspectiva. Com a qual você não tem como chegar a qualquer conclusão significativa sobre o mundo, o passado, ou as complexidades da cultura.

28. Onism
A frustração de estar preso em apenas um corpo que habita apenas um lugar por vez.

29. Opia
A intensidade ambígua de olhar alguém nos olhos, e sentir-se simultaneamente invasivo e vulnerável.

30. Reverse Shibboleth
A prática de atender o telefone com um “alô?” genérico, como se você já não soubesse quem está ligando.

31. Rückkehrunruhe
O sentimento de voltar para casa depois de uma viagem imersiva, e perceber que toda a experiência já está desaparecendo rapidamente da sua consciência.

32. Sonder
Dar-se conta de que cada pessoa tem uma vida tão vívida e complexa quanto a sua – populada por ambições, amigos, rotinas, preocupações e loucura.

33. Scabulous
Sentir orgulho de uma cicatriz. Como um autógrafo dado a você pelo mundo.

34. The Bends
A frustração ao perceber que você não está aproveitando uma experiência tanto quanto deveria.

35. Trumspringa
A tentação de sair da sua meta de carreira e se tornar pastor de ovelhas nas montanhas.

36. Waldosia
Olhar para todos os rostos em uma multidão, procurando uma pessoa específica que não teria motivo algum para estar aí.

37. Zenosyne
A sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido.

Peguei a dica aqui. No site do projeto “The Dictionary of Obscure Sorrows” tem muito mais.

 

Curiosidade: você sabia que o exercício de inventar as palavras ausentes está presente em todos os módulos do Terapia da Palavra, desde 2004.

 

Assim na mesa como nos livros

Assim na mesa como nos livros

Pratos fictícios: Fotografias criativas de refeições famosas na Literatura

Alimentos e literatura têm um longo e complexo relacionamento. O cardápio é vasto. Já apareceram artistas e escritores reinventando as receitas de Jane Austen e um livro de memórias inspirado no menu de Alice no País das maravilhas. No entanto, em nenhuma destas obras a relação é mais vívida ou encantadora do que no livro “Pratos fictícios” (Fictious Dishes, ainda sem tradução no Brasil). Trata-se de um “álbum de refeições memoráveis da literatura” (biblioteca pública | IndieBound), um projeto engenhoso do desenhista e escritor Dinah Fried, que cozinha, faz a direção de arte e fotografia de refeições de quase dois séculos. Cada fotografia é acompanhada pela passagem em particular em que apareceu a receita, e um pequeno resumo com curiosidades sobre a obra, o autor ou os alimentos retratados.

Fictitious Dishes: Alice's Adventures in Wonderland
Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll, 1865)

Fictious Dishes é para todos que já se pegaram imaginando como era a festinha do chá em Alice no País das Maravilhas, o mingau de Oliver Twist, ou os sanduíches de queijo suíço de Holden Caulfield.

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A Metamorfose (Franz Kafka, 1915)

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Moby-Dick (Herman Melville, 1851)

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No Caminho de Swann (Marcel Proust, 1913)

 

A imagem principal do post retrata o cocktail de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald, 1925).

Confira o post original no Brain Pickings.

 

15 Sinais de que você é um escritor

Ernest Hemingway

De papéis dobrados a rabiscos nos livros, você sempre foi uma bagunça literária.

Independentemente de onde está, sempre tem algo por perto que possa usar para escrever – um papel e uma caneta ou um gadget. Algumas pessoas podem achar isso estranho, mas fazer o quê!, você é assim desde que foi apresentado ao alfabeto (que você prefere escrever do que dizer em voz alta).
É como se você tivesse nascido… diferente!

1. Você coleciona palavras

Se uma frase faz sentido pra você, então você deve guardá-la. Você não pode ler os livros sem uma caneta ou um bloco de notas ao seu lado. Como resultado, você acaba com um monte de Post-its, anotações, tratados. Tudo em nome de “Eu não quero esquecer isso”.

2. Você ama aventura

Sua cabeça nunca está em um lugar só. Você adora criar cenas das suas palavras (ou colocar em palavras as cenas que vê). Abandonar a realidade por curtos períodos de tempo é o que parece para mantê-lo “vivo”. Às vezes você é acusado de não prestar atenção.

3. Você ama ler

Mergulhar em um livro é a sua definição de diversão. Enquanto todo mundo vai para o cinema ou para o videogame, você prefere um cantinho aconchegante com um livro em suas mãos. Emprestar um livro é difícil, porque a única coisa que você pensa é, “e se a pessoa não me devolver?”

4. Você prefere escrever a falar

Você terminou mal uma discussão. Não disse tudo que gostaria. Pensa, pensa e resolve: vai escrever, mandar um e-mail. O mesmo se aplica ao fazer uma reclamação sobre um produto ou serviço a uma empresa . Você vai pular a linha de chamada gratuita e olhar direto para o e-mail de contato em vez disso. Os cartões de aniversário quase sempre tem mais do que “Feliz aniversário” escrito neles; pode ser um poema, algo engraçado ou apenas … algo mais.

5. Você reconhece um bom texto

Você sabe que o texto é bom assim que termina de ler. Você aprecia escrita bem feita, construída habilmente. Às vezes você lê uma frase e parágrafo repetidamente não por causa do que está escrito, mas de como está escrito . E quando você se depara com algo incrível, você sorri.

6. Você observa e cria histórias sobre as coisas que viu

Seu olhar nunca está no mesmo lugar. Enquanto todo mundo está batendo papo, você às vezes se pega em silêncio, só observando as ações das pessoas . Às vezes você só está observado, às vezes está inventando histórias na sua cabeça sem que tenha conhecimento.

7. Você vê cada experiência como uma mina de ouro

Para você nada é desperdício. Se você fica encharcado na chuva, ou se o seu cachorro persegue alegremente o filho de 6 anos de idade do seu vizinho no final da rua, ambas situações são “algo para escrever a respeito”.

8. Seus livros e diários valem mais do que sapatos

Você poderia descartar seus sapatos velhos e até mesmo dar alguns fora para a caridade, mas… mexer na sua estante? Nunca! Nem na sua próxima encarnação. Enquanto há, num livro, uma frase que você gostou, uma nota que tomou, uma história por trás, a última coisa que você quer fazer é jogá-lo fora .

9. Você vê a escrita como uma forma de terapia

Para você, colocar palavras no papel é terapêutico. Sempre que você sente raiva , se sente solitário ou deprimido, seu melhor amigo não é a garrafa, mas aquele pedaço de papel ao seu lado. Se passar muitos dias sem escrever suas emoções pode até perder as estribeiras.

10. Você é curioso

Sua sensibilidade é grande. Você sabe quando o cachorro que frequenta a pracinha em frente a sua casa não veio e percebe bem rápido quando as pessoas começam a agir de maneira diferente. Às vezes você tem interesse em coisas e objetos que são frequentemente ignorados por outros, como máquinas de escrever, por exemplo.

11. Você gosta de ouvir seus pensamentos

Pensar é algo natural para você . Enquanto outros tentam , tanto quanto possível evitar, você abraça os pensamentos. “Por quê você pensa tanto?” Essa é, provavelmente, uma pergunta que você deve ouvir frequentemente . A verdade é que você não tem uma resposta para isso. Você “só pensa o tempo todo mesmo”, não vê como isso poderia ser diferente.

12. Você valoriza cada elogio

Não, você não se orgulha quando as pessoas te elogiam, mas você adora quando as pessoas fazem isso. Sempre que alguém diz que alguma coisa que você escreveu está ótima, você revive esse momento em sua cabeça várias vezes. Você vai voltar para o texto elogiado vez ou outra, como se você buscasse novamente a razão para o elogio. Isso impulsiona você o suficiente para escrever ainda mais.

13. Você acredita que pode melhorar

Quando você vê alguém que escreve melhor do que você , algo que acorda em seu interior. “Se fulano(a) pode escrever assim, eu também posso”. Isso poderia levar você a tentar imitar aquele estilo. Mas isso não dura muito tempo, mais cedo ou mais tarde , você encontra sua voz e vai ficando cada vez melhor em seu ofício.

14. Você tem surtos e frenesi com a escrita

No primeiro bloqueio (writer’s block) tudo que você vê é uma página em branco, mas minutos mais tarde você já está rabiscando como se estivesse sendo perseguido por seus pensamentos. Às vezes você só planejava algumas palavras, uma meia página; depois de alguns minutos você já chegou a duas páginas e não chegou nem no meio do caminho .

15. Você nunca para de escrever

Mesmo que você tenha o trabalho mais exigente, que tomou a maior parte de suas horas do dia, você sempre encontra tempo para escrever algo. Mesmo que você tenha perdido tudo neste mundo, as primeiras coisas que você gostaria de ter de volta seriam uma caneta e papel.

Duvidar de sua capacidade de escrever é comum. Até Stephen King disse uma vez que era um escritor terrível . Você não está sozinho. E você não é como todo mundo quer. Você é único. Você é especial. Você é um escritor!

 

O post original, em inglês, aqui.

Leia mais e escreva melhor

reading
“Se você não tem tempo para ler, você não tem tempo (ou as ferramentas) para escrever. Simples assim” – Stephen King

Para escrever bem, só há duas coisas que você realmente precisa fazer: ler e escrever. Todo o resto deriva destas duas atividades e uma não existe sem a outra.
Escrever é uma arte complexa e complicada. Fundamentos da escrita podem ser ensinados, mas é impossível ensinar a alguém a arte da escrita sem que a leitura (muita leitura!) constitua um de seus alicerces. 

O cérebro humano é como uma esponja. Absorvemos tudo o que nós vimos e experimentamos em nossas vidas, cada situação que vivenciamos se torna uma parte nossa. O que lemos não é exceção.

Você pode não se lembrar de todas as músicas que seus pais cantavam para fazer você dormir, por exemplo, mas, essa informação está lá, em algum lugar da sua cabeça. Quando escutar uma melodia parecida seu corpo irá reagir, mesmo que você não saiba exatamente ao quê.

Se você quer escrever bem, você precisa ler bem, e muito, e variadamente. É através da leitura que irá aprender e encontrar inspiração. Conforme você lê mais, mais você aprende a ler com olhos de escritor. Até regras de gramática serão interiorizadas sem que seja necessário decorar toda aquela teoria extensa e muitas vezes entediante. Você irá absorver o conhecimento e aguçar sua intuição.

Um escritor que leu muito se sai melhor em vocabulário, entende as sutilezas da linguagem e reconhece, facilmente, a diferença entre a escrita pobre e àquela de qualidade.
Um escritor que não lê poderia ser comparado a um músico que não ouve música, a um diretor de cinema que não assiste a filmes. É impossível fazer um bom trabalho sem conhecer, ao menos em parte, o bom trabalho (de escrita) que já foi feito.

Leia BASTANTE

faulkner

“Leia, leia, leia . Leia tudo – literatura barata, clássicos, livros bons e ruins. Da mesma forma que um carpinteiro que trabalha como um aprendiz e estuda o mestre. Leia, você vai assimilar muita coisa boa assim.” – William Faulkner

Somos espelhos. Refletimos de volta para o mundo o que apreendemos. Se você só lê livros didáticos, sua escrita será impessoal e informativa. Se lê romances tórridos, sua prosa vai tender a ser sensual. Leia os clássicos e sua produção será mais madura. Leia poesia e será fluida e musical.

Se você já sabe o gênero que quer escrever (ao menos para começar), é uma pessoa de sorte. O melhor é começar a ler muito dentro do estilo que escolheu. Encontre autores que escrevem da forma que você gostaria de escrever e leia TUDO o que escreveram.

Não evite navegar por gêneros e estilos por enquanto. Se você sabe o gênero e o estilo em que almeja produzir, priorize-o, mas não exclua os outros. Ler fora da sua área de interesse também vai diversificar e expandir seus conhecimentos e horizontes, além de tornar possível que você encontre novas técnicas para a sua escrita. Quem sabe, no futuro, não será capaz até de misturar gêneros e estilos?

Não se tranque no gênero. Não caia em formulas. O foco deve ser sempre a história, uma boa história. Leia o máximo delas que encontrar (e, se possível, algumas ruins, para ter base de comparação).

O quanto você lê? O quê está lendo agora? Como a leitura influencia sua escrita? Conta pra gente aqui nos comentários.

E… continue escrevendo! Continue escrevendo! Continue escrevendo!

Novo acordo ortográfico… valendo!

Entra em vigor novo Acordo Ortográfico

Entra em vigor novo Acordo Ortográfico

Além da morte do trema, foram incorporadas as três letras K, W e Y , e agora, oficialmente, temos um alfabeto com 26 letras. Caíram também os acentos agudos de palavras como “ideia”, “plateia” e “ateia”. Aniquilaram com o acento diferencial de pára (do verbo parar) e do para (preposição).

No site da  ABL (Academia Brasileira de Letras) você pode consultar as suas dúvidas sobre ortografia, além de enviar as suas perguntas ao ABL Responde.

 

O que há na literatura natalina além de Dickens?

Charles acendeu as luzes

Por Carlos Zanón

O Natal é infância e família. Há infâncias horríveis e famílias assombrosas. Mas para a maioria ambas tem sido território e refúgio. J.M. Barrie escreveu que a partir dos sete anos não acontece nada especialmente relevante. E é isso. O Natal é também e muito especialmente uma narrativa poderosa e magnética. Uma canção cuja melodia – simplista, mas certeira – soube adaptar-se a religiões e cartões de crédito. À nossa psicologia, aos nossos usos, necessidades e ritos. Quase tudo o que se pode dizer contra o Natal é lúcido e razoável… but I like it. Além disso, por que nos enfurecermos com essa mentira e engoli-la sem reclamar das outras? Como a de que quem faz paga, a do amor eterno ou a de se pode ficar rico trabalhando.

O desesperador do Natal é que conhece nossos pontos frágeis, diverte-se com eles, nos deprime, emociona, redime e condena, mas nunca de modo definitivo. No final, salta ao pescoço e, como os valentões, te agarra: ganhe dinheiro, comporte-se bem e falamos dentro de um ano.

O Natal também teve seus maus momentos. Em um deles, um escritor aproveitou a nostalgia das antigas celebrações vitorianas e correu para o resgate. Há quem garanta que foi Charles Dickens quem inventou o Natal do modo como o conhecemos. No mínimo acendeu as luzes em uma época onde o festejo era obscuro e nada solidário.

Seu mais célebre conto de Natal, A Christmas Carol (Um Conto de Natal) (1843), era apenas um panfleto contra os maus-tratos do trabalho infantil quando ele se sentou para escrevê-lo, mas logo se transformou em um conto natalino com fantasmas. Dickens por aquela época já sabia da força de uma ficção sobre decretos, parlamentos e discursos inflamados. Seu protagonista é o avaro e mesquinho Scrooge. Os demais personagens, fantasmas e leitores levaram um século e meio assediando e empurrando o velho como uma bruxa para a fogueira. E tudo porque ele se esforça em não acreditar na mentira, em não viver a vida como uma ficção consensual.

dickens

Que feio é viver

Por Alberto Manguel

No princípio, a Igreja cristã fazia pouco caso dos aniversários. A única data que importava era a da Segunda Vinda de Cristo, e essa estava além do entendimento humano. Mas a partir do século II o nascimento milagroso começou a ser celebrado pelos cristãos do mundo inteiro, inspirando em um de seus mais célebres opositores o que talvez tenha sido o primeiro conto de Natal. O neoplatônico Celso, fazendo pouco caso do que chamava de “fábulas fabricadas”, escreveu uma versão do evento sagrado na qual Cristo nasce em uma aldeia da Judeia fruto de uma camponesa adúltera e um soldado romano chamado Pantero. Essa variação racionalista é a remota antepassada de outras mais recentes: A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis; O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago; O Testamento de Maria, de Colm Tóibín. Mas é Dickens quem define para nós o que é (ou precisa ser) um conto de Natal com uma árvore faustosamente decorada, doces, ponche e peru assado, e acima de tudo, a mágica transformação de sentimentos mesquinhos em generosos e altruístas.

Talvez porque todo escritor, como Celso, encarne o espírito artístico da contradição, em lugar de continuar com o tom exultante de Dickens, os contos de Natal de nossa época são em geral lúgubres e pessimistas, como se quisessem lembrar-nos que nessa data, a mais feliz de todas no calendário cristão, novas Marias continuam sendo despejadas pelo dono da hospedaria, e que novos Cristos sofrem a traição, o escárnio e a cruz.

John Cheever em O Natal é Triste para os Pobres, Alice Munro em A Estação do Pavão, Vladimir Nabokov em Natais, Sergio Ramírez em San Nikolaus ou Michel Tournier em Mamãe Noel descrevem o Natal como uma festa de angústia e solidão, como para nos advertir de que, em meio a ceias opulentas e montanhas de presentes, nossa condição humana aguarda ainda a redenção prometida.

 

Fonte: El País

O sono de escritores famosos

A Maria Popova, do Brain Pickings, se juntou à ilustradora Wendy MacNaughton para fazer um infográfico que reúne os hábitos de sono de alguns dos escritores mais famosos do mundo e as premiações recebidas por cada um.

E você? Cedo madruga?

Escrita Criativa

Pequeno Dicionário da Língua Morta

Vocês já ouviram falar nesse livro, “Pequeno Dicionário da Língua Morta”? O Dicionário é do jornalista Alberto Villas. E você, de que palavras você sente falta?

Não aos “verbos de pensamento”: o conselho de Chuck Palahniuk para novos escritores

dicas de escrita de chuck palahniuk

 

Em seis segundos, você vai me odiar. Mas em seis meses, será um escritor melhor.

De agora em diante – pelo menos pelo próximo meio ano – você não poderá usar “verbos de pensamento”, incluindo: pensar, saber, entender, perceber, acreditar, querer, lembrar, imaginar, desejar e centenas de outros que você ama.

Essa lista também deve incluir: amar e odiar. E pode se estender a ser e ter, mas nós vamos chegar nesse mais tarde.

Até mais ou menos o Natal, você não poderá escrever: “Kenny se perguntou se Mônica não gostava que ele saísse à noite…”

Em vez disso, você terá de desmembrar isso em algo como: “Nas manhãs que se seguiam às noites em que Kenny estava fora depois do último ônibus, quando ele teria que pegar uma carona ou pagar por um carro para chegar em casa e encontrar Mônica fingindo dormir – porque ela nunca dormia daquela forma tão tranquila – naquelas manhãs, ela sempre colocava apenas sua xícara de café no microondas. Nunca a dele.

Em vez de fazer seus personagens saberem qualquer coisa, você deve agora apresentar detalhes que permitam que o leitor os conheça. Em vez de fazer seus personagens quererem alguma coisa, você deve agora descrever a coisa para que seus leitores passem a querê-la também.

Em vez de dizer: “Adam sabia que Gwen gostava dele.”, você terá que dizer: “No intervalo entre as aulas, Gwen se encostava no armário de Adam quando ele se aproximava para abrí-lo. Ela rolava os olhos e partia, deixando uma marca negra no metal, mas também seu perfume. O cadeado ainda estava quente pelo contato com suas nádegas. E, no próximo intervalo, Gwen estaria encostada ali, outra vez.”

Para resumir, pare de utilizar atalhos. Apenas detalhes sensoriais específicos: ações, cheiros, gostos, sons e sensações.
Normalmente, os escritores usam esses “verbos de pensamento” no início dos parágrafos (dessa forma, você pode chamá-los de “afirmação de tese”, e eu vou protestar contra eles mais tarde). De certo modo, eles afirmam a intenção daquele parágrafo. E, o que se segue, ilustra essa intenção.

Por exemplo: “Brenda sabia que ela nunca cumpriria o prazo. O trânsito estava terrível desde a ponte, passadas as primeiras oito ou nove saídas. A bateria do celular havia se esgotado. Em casa, os cachorros precisariam sair para um passeio, caso contrário haveria uma grande bagunça para limpar depois. Além disso, ela prometeu que aguaria as plantas para o vizinho…”

Você percebe como essa “afirmação de tese” tira o brilho do que se segue? Não faça isso.

Se não tiver jeito, corte a sentença de abertura e coloque-a depois de todas as outras. Melhor ainda, mude para: “Brenda nunca cumpriria o prazo.”

Pensar é abstrato. Saber e acreditar são intangíveis. Sua história sempre vai ser mais forte se você mostrar apenas as ações físicas e os detalhes dos seus personagens e permitir que seu leitor pense e saiba. E ame e odeie.

Não diga ao leitor: “Lisa odiava Tom.”

Em vez disso, construa seu caso como um advogado na corte, detalhe por detalhe.

Apresente cada evidência. Por exemplo: “Durante a chamada, no instante logo após a professora dizer o nome de Tom, naquele momento antes que ele respondesse, bem naquele instante, Lisa sussurrava “seu merda” justo quando Tom respondia “Presente”.

Um dos erros mais comuns de escritores iniciantes é deixar seus personagens desacompanhados. Ao escrever,  você pode estar sozinhos. Ao ler, sua audiência vai estar sozinha. Mas seus personagens devem passar muito pouco tempo sozinhos. Porque um personagem desacompanhado começa a pensar, a se preocupar ou a se perguntar.

Por exemplo: “Enquanto esperava pelo ônibus, Mark começou a se perguntar quanto tempo a viagem tomaria…”.

Uma construção melhor seira: “A programação dizia que o ônibus chegaria ao meio dia, mas o relógio de Mark dizia que já eram 11:57. Dali dava para ver até o fim da rua, até o shopping, e ele não via nenhum ônibus vindo. Sem dúvidas, o motorista estava parado em algum retorno no fim da linha, tirando uma soneca. O motorista estava dormindo e Mark estava atrasado. Ou pior, o motorista estava bebendo e, quando ele parasse ali, bêbado, cobraria setenta e cinco centavos por uma morte horrível em um acidente de trânsito.”

Um personagem sozinho deve mergulhar em fantasia em memória, mas mesmo nesses casos você não pode usar “verbos de pensamento” ou qualquer um de seus parentes abstratos.

Ah, e você não pode se esquecer dos verbos lembrar e esquecer. Nada de frases como “Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar seu cabelo”.

Em vez disso, diga: “Quando estavam no segundo ano da faculdade, Nelson costumava arrumar o cabelo dela com escovadas suaves e longas”.
Outra vez: desmembre. Não utilize atalhos.

Melhor ainda, coloque o seu personagem junto com outro personagem rapidamente. Coloque-os juntos e deixe a ação começar. Deixe a ação e as palavras mostrarem seus pensamentos. Saia da cabeça deles.

E, enquanto estiver evitando os “verbos de pensamento”, seja muito cauteloso ao utilizar os verbos ser e estar.

Por exemplo:

“Os olhos de Ann eram azuis” ou “Ana tinha olhos azuis”
versus
“Ann tossiu e sacudiu uma mão em frente seu rosto, espantando a fumaça de cigarro de seus olhos, olhos azuis, antes de sorrir…”

Em vez de usar os sem graça “ser” e “ter”, tente enterrar esses detalhes dos personagens em suas ações ou gestos. Para simplificar, isso é mostrar sua história, em vez de contar.

E daqui para frente, depois que você aprender a desmembrar seus personagens, você vai odiar os escritores preguiçosos que se contentam com: “Jim sentou-se ao lado de seu telefone, perguntando-se se Amanda não ligaria.”

Por favor. Por enquanto, me odeie com todas as suas forças, mas não use “verbos de pensamento”. Depois do natal, sinta-se livre, mas eu apostaria dinheiro que você não vai voltar atrás.
(…)
Como tarefa do mês, vasculhe suas escritas e circule cada “verbo de pensamento” que você encontrar. Depois, encontre uma forma de eliminá-los.

Mate-os através do desmembramento.

Em seguida, vasculhe algum livro de ficção e faça o mesmo. Seja impiedoso.
“Marty imaginou um peixe saltando sob a luz da lua…”
“Nancy lembrou-se do sabor do vinho…”
“Larry sabia que ele era um homem morto…”

Encontre-os. Depois, descubra um jeito de reescrevê-los. Torne-os mais fortes.

– Chuck Palahniuk

O Menino do Rio Doce

Em uma homenagem ao Rio Doce, Ziraldo está disponibilizando o livro “O Menino do Rio Doce” na íntegra.

Confira aqui!

Precursor da autoficção

Raul Pompeia é o primeiro grande romancista a lançar mão de material autobiográfico de maneira tão desinibida e arriscada. Confira a matéria aqui, no Rascunho.

Tarefa-aperitivo

Você está pensando em fazer a próxima turma de Escrita Criativa mas não sabe muito bem como funciona? De presente pra vocês uma apostila que já usamos nos cursos anteriores! Opinem, contem aí nos comentários o que acharam!

Que tal se arriscar produzindo um bom texto? Clique na imagem abaixo para baixar nosso desafio!

apostila

 

7 dicas de Kurt Vonnegut para escrever bem

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1 – Encontre um assunto que seja relevante para você
Encontre um assunto com o qual você se importe e que gostaria que outros também se importassem. É esse cuidado verdadeiro, e não seus jogos de linguagem, que vai ser o mais convincente e sedutor elemento do seu estilo de escrita.
Não estou encorajando você a escrever um romance – mas não ficaria triste se você escrevesse – a partir de algo com o que você genuinamente se importe. Para começar, uma petição para o prefeito sobre uma fossa em frente a sua casa ou uma carta de amor para sua vizinha servem.

2 – Não divague
Não vou divagar sobre isso.

3 – Mantenha as coisas simples
Lembre-se que os dois maiores mestres da linguagem, William Shakespeare e James Joyce, escreveram sentenças que pareciam infantis quando os assuntos eram muito profundos. “Ser ou não ser?” pergunta de Hamlet, de Shakespeare. A maior palavra da frase tem três letras. Joyce, brincando com as palavras, poderia fazer sentenças tão emaranhadas e deslumbrantes como um colar para Cleópatra. Entretanto, minha frase favorita está em sua pequena história “Eveline”; é essa: “ela estava cansada”. No ponto da história, nenhuma outra palavra poderia quebrar o coração do leitor como essas três.

4 – Tenha coragem para cortar
Pode ser que você também seja capaz de fazer colares para Cleópatra, digamos. Mas sua eloquência deve ser serva de suas ideias. Sua regra deve ser essa: se uma frase, não importa quão excelente esteja, não iluminar seu assunto de uma maneira nova e útil, corte-a.

5 – Soe como você
Seu estilo de escrita acaba repetindo o discurso que você ouviu quando era criança. Não tente escrever como um erudito que viveu um ou mais séculos atrás.

6 – Diga o que você quer dizer
Meus professores desejavam que eu escrevesse com precisão, sempre selecionando as palavras mais eficazes e relacionando as palavras sem errar, de forma rígida, como peças de uma máquina. Eles esperavam que eu me tornasse compreensível e, portanto, compreendido. E lá se foi o meu sonho de fazer com palavras o que Pablo Picasso fez com a pintura ou o que alguns ídolos do jazz fizeram com a música. Se eu quebrar todas as regras de pontuação, fizesse com que as palavras significassem o que eu queria que eles significassem, e amarrando-as juntas, eu simplesmente não seria compreendido. Então, você, também, é melhor evitar Picasso como estilo de escrita. Isso se você tem algo importante a dizer e gostaria de ser compreendido.
Os leitores querem que nossas páginas pareçam muito com páginas que já tenham visto antes. Por quê? Isso é porque eles próprios têm um trabalho difícil para fazer, e precisam de toda a ajuda que podem obter de nós.

7 – Tenha pena dos leitores
Os leitores têm de decifrar milhares de pequenas marcas no papel e entendê-las imediatamente. Eles têm de ler. Uma arte tão difícil que a maioria das pessoas realmente não a domina mesmo depois de anos de ensino fundamental e médio.
Portanto, devemos, finalmente, reconhecer que as nossas opções estilísticas como escritores não são nem numerosas nem glamourosas, já que os nossos leitores são mais como artistas imperfeitos. Nosso público obriga-nos a ser como professores simpáticos e pacientes, sempre dispostos a simplificar e esclarecer, enquanto nós preferimos voar alto acima da multidão, cantando como rouxinóis.

Fonte: Brain Pickings

10 universos complexos da literatura

A imaginação de alguns autores é tão maravilhosa que eles não se limitam em criar uma história rica e bem construída. Eles também desenvolvem universos inteiros, com informações geográficas, povos e histórias elaboradas sobre tais lugares. Levantamos os 10 mundos fantasiosos mais incríveis da literatura. Confira a lista:

10. Utopia

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O termo utopia vem do grego: significa οὐ (“não”) and τόπος (“lugar”), ou seja “não lugar”. A palavra foi criada por Sir Thomas More, em 1516, no livro Utopia. A obra descreve uma sociedade fictícia numa ilha do Oceano Atlântico. A Utopia era um lugar com um sistema político, social e jurídico perfeitos. Todo o conceito fantasioso de Utopia tornou-se um termo usado tanto na literatura, como na política internacional para descrever  um ideal perfeito, mas pouco realista, impossível de ser atingido. Foi a partir da Utopia de Thomas More que surgiu também o conceito de Distopia, muito usado nas fantasias para jovens adultos atuais.

9. Discworld

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Discworld é um planeta fantástico, onde são desenvolvidos os acontecimentos da série de livros de mesmo nome, escrita pelo britânico Terry Pratchett. São 31 livros, publicados de 1983 a 2011. O mundo de Discworld é inspirado na mitologia hindu: o planeta é sustentado nos ombros de quatro elefantes (Grande T’phon, Tubul, Berilia e Jerakeen), que por sua vez são sustentados pelo casco de uma enorme tartaruga, a Grande A’Tuin. O enredo traz paródias de outros livros de fantasia, como Senhor dos Anéis e Conan, o Bárbaro, e personagens de origens fantásticas, como bruxas, gnomos, deuses, anões, entre outros.

8. Terra do Nunca

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Em 1911, a peça infantil do escocês J. M. Barrie, chamada Peter e Wendy, foi publicada como livro. A história do menino que não queria crescer ganhou o mundo, e a Terra do Nunca, ilha para a qual ele fugiu, tornou-se um dos universos fantásticos mais famosos da literatura. O local fica no Mar das Mil Ilhas, e é lá que vivem Peter Pan, os meninos perdidos, a fada Sininho e o capitão Gancho. Para chegar, você precisa ir voando e pegar “a segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer”. No romance, a Terra do Nunca é vista de maneira diferente por cada uma das crianças, servindo como uma metáfora para o escapismo da realidade e a infantilidade.

7. País das Maravilhas e o País dos Espelhos

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O País das Maravilhas e o País dos Espelhos são os mundos em que Alice, personagem de Lewis Carroll, vive suas aventuras nos livros publicados em 1865 e 1871, respectivamente. O País das Maravilhas é um mundo de sonhos, estranho e louco, em que Alice chega após cair num buraco de coelho. Os animais são como pessoas, falam, tomam chá, fazem festa, etc. O tempo e o tamanho físico são relativos. A magia e a loucura estão presentes por toda parte. Nesse mundo, há um reino de cartas de baralho, onde a Rainha de Copas tem como bordão a frase “Cortem-lhe as cabeças”. O País das Maravilhas é uma metáfora de um mundo só visto através dos olhos de uma criança.

O País dos Espelhos se assemelha ao das Maravilhas. Alice chega lá passando pelo espelho em cima da chaminé de sua casa. É como se fosse um País das Maravilhas invertido: se você precisa ir a algum lugar, precisa andar para o outro lado. Toda essa terra é como um enorme tabuleiro de xadrez, com riachos marcando as bordas dos quadrados e as regras do jogo valem para quem tenta mudar de um quadrado para outro. A história avança à medida que Alice tem que ir jogando xadrez para se tornar rainha. O mundo do espelho também é um mundo de sonhos, mas, no caso, é uma metáfora para o nosso mundo adulto.

6. Nárnia

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Nárnia é um mundo de fantasia, criado por C. S. Lewis e retratado na série de livros As Crônicas de Nárnia. Nárnia também é o nome de um país dentro deste mundo, que tem outros lugares como a Arquelândia, Cair Paravel, Ermo do Lampião, a Calormânia, a Charneca de Ettin, o Grande Deserto, Telmar, os Campos Agrestes do Norte, e os Campos Ocidentais. Esse lugar, criado pelo leão Aslan, tem magia, animais falantes e criaturas mitológicas. O país é plano e é o sol que circula o mundo, ao contrário do que acontece na Terra. O oceano tem água doce e o céu encontra o mar no limitar. Além disso, o tempo por lá passa muito mais rápido: 1 ano no nosso mundo corresponde à 1300 anos de lá. Lewis se inspirou em paisagens irlandesas para criar Nárnia.

5. A Galáxia

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Douglas Adams escreveu uma “trilogia de cinco livros”, criando o universo inteiro em O Guia do Mochileiro das Galáxias. Nos livros, planetas e civilizações preenchem um universo de fantasia, a “Galáxia”, que seria a Via Láctea. A Terra, por exemplo, é destruída no início do primeiro livro para a construção de uma via expressa hiperespacial do povo Vogon, mal humorados e extremamente burocráticos e poetas. A Terra, na verdade, era um supercomputador, construído pelo pessoal do antigo planeta Magrathea, de aparência desértica e que já fora rico por conta do lucrativo negócio de produzir outros planetas. No caso, a Terra foi confeccionada para o Pensador Profundo, um supercomputador desenhado para calcular a resposta definitiva sobre a vida, o universo e tudo o mais. Dentro da Galáxia são descritos 5 setores, 20 sistemas solares e 30 planetas. Douglas Adams ainda fala sobre lugares no Universo além da Galáxia, como o Miliways, o restaurante no fim do universo, onde só se chega através de uma viagem no tempo ou o The Big Bang Burger Bar, que, ao contrário do anterior, fica exatamente no início da criação de tudo.

4. Terra de Oz

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A primeira vez que se falou na Terra de Oz foi no livro O Fantástico Mágico de Oz, escrito por Frank Baum em 1900. É a história de Dorothy, que sai do Kansas num furacão e vai parar numa terra mágica. Nos primeiros livros, a geografia de Oz é dividida em 4 países e a Cidade das Esmeraldas no centro. Tais países estão limitados dos quatro lados por desertos intransponíveis. O Homem de Lata é imperador do País dos Winkies, Glinda governa o sul, terra dos Quadlings. Ainda há o norte, país dos Gillikins, e o leste, dos Munchkins. A cidade das Esmeraldas é governada pela Princesa Ozma e os demais países são subordinados a ela.

A partir do terceiro livro, é revelado que existem outros países além da Terra de Oz. Como, por exemplo, o Reino de Ev, o País dos Nomos e mundos subterrâneos como o Reino dos Vegetais, a terra de Voe e o mundo das Gárgulas, entre outros. Esses lugares ficam além dos desertos de Oz, e são cercados por um Oceano chamado Nonéstico.

3. Duna

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O universo ficcional de Duna foi criado por Frank Herbert, com o primeiro livro (também chamado Duna) lançado em 1965. O autor publicou, ainda, outros 5 livros. A partir de 1999, Brian Herbert, filho de Frank, e Kevin J. Anderson ampliaram ainda mais a série de livros, que também se expandiu para outras plataformas. Esse universo acontece num futuro distante, quando a humanidade vive em uma espécie de sistema feudal, em que cada família nobre, aliada a um imperador, controla um planeta diferente. Essa sociedade baniu todo tipo de inteligência artificial, mas usa uma especiaria chamada “melange”, que permite aumentar as funções mentais e físicas dos humanos. O planeta desértico Arrakis é a única fonte de melange no universo, porém é um lugar perigoso e difícil de controlar, onde vive a família protagonista da trama. A história de Duna é considerada uma das principais séries de ficção científica de todos os tempos. A obra influencia até os cientistas: em 2009, os nomes de planetas de Duna foram utilizados para nomear planícies e outras formações em uma lua de Saturno.

2. Westeros e Essos

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Westeros e Essos são dois continentes descritos na série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. É nessa grande área que se passa a história dos 5 livros já publicados da saga. Westeros é o principal continente, onde acontece a disputa pelo Trono de Ferro. Ricamente descrito, é possível compreender todo o contexto social e geopolítico de Westeros pelos livros. Cada região possui uma família ou poder dominante. No Norte, fica uma muralha mágica feita de gelo, que separa o resto do continente de uma região dominada por selvagens e outras criaturas mágicas. Abaixo da muralha, estão localizados o Norte, as Ilhas de Ferro, o Vale, as Terras Fluviais, as Terras Ocidentais, a Campina, as Terras da Coroa (onde fica a capital, Porto Real) e, por fim, Dorne e as Terras da Tempestade.

Leia também:
Explore o universo fantástico de Game of Thrones neste especial da SUPER

O mar Estreito separa Westeros de Essos, um continente bem maior, mas menos populoso. Por ali existem várias cidades-estado. Toda a costa oeste é dominada por nove Cidades Livres. No centro sul, fica a Baía dos Escravos, com cidades portuárias e escravagistas. No interior do continente ficam tribos de guerreiros, região conhecida como Mar Dothraki. Já na costa leste, fica Qharth e o Mar de Jade. Ao sul da Baía dos Escravos, encontram-se as Ilhas do Mar Fumegante, região em que ficava Valíria. Existe, ainda, uma parte inexplorada de Essos, onde fica Asshai e as Terras da Sombra.

Ainda há um terceiro continente, pouco conhecido, chamado Sothoryos, localizado ao sul de Essos.

1. Terra Média

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A Terra Média saiu da imaginação de J.R.R. Tolkien, que descreveu as histórias desse universo na trilogia O Senhor dos Anéis, além de O Hobbit e O Silmarillion. As narrativas dos livros contam as aventuras e lutas num mundo chamado Arda e, principalmente, num continente desse mundo, a Terra Média. Nesse lugar vivem elfos, homens, anões, magos, hobbits, orcs, trolls e dragões. Os mapas de toda a região foram publicados junto com os livros – e também posteriormente à morte de Tolkien, com contribuição dos fãs da série. O universo desenvolvido pelo autor é tão completo que inclui também idiomas e escritas próprias.

Leia também:Como J.R.R. Tolkien transformou toneladas de conhecimento acadêmico na mais complexa das sagas

A Terra Média que existe nos livros seria um período imaginário no passado da própria Terra. Numa aproximação imperfeita, se o mapa da Terra Média fosse projetado no da Terra, algumas semelhanças se alinham, como o Condado dos Hobbits na Inglaterra, Gondor na Itália e Grécia, e Mordor na Turquia e Oriente Médio.

Por Luíza Antunes, original da Super Interessante, aqui!

Você sabia que 13 de outubro é o Dia Mundial do Escritor?

Ser escritor é uma mistura de talento com disciplina e determinação. Muita gente parece que nasce com o bichinho da escrita. Mas, para outros, escrever é uma descoberta que pode aparecer em diversas partes da vida. Em homenagem aos autores da nossa vida, o Estante Blog conta um pouco da história de escritores geniais que atenderam o chamado dos livros (ou do sucesso) mais tarde na vida.

 Marquês de Sade

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O famoso filósofo, político e aristocrata libertino tinha muitos, digamos, hobbies. Até por isso, ele só começou a se dedicar aos livros aos 47 anos de idade. Ainda assim, só teve tempo para escrever porque foi preso na Bastilha por atos de “desvio sexual”. Foi no cárcere que ele escreveu seu primeiro romance, Justine, publicado quatro anos depois, quando Sade já tinha 51.

 

Bram Stoker

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Bram Stoker passou boa parte da sua vida profissional como assistente de um excêntrico ator inglês chamado Henry Irving. A escrita, nessa época, era apenas um passatempo para o futuro lendário autor. Somente em 1890, aos 43, ele publicou O castelo da serpente. Sete anos depois ele lançaria a obra que o eternizou: Drácula, quando estava com cinquenta anos. Deste momento em diante o autor entrou numa fase prolífica, lançando mais sete livros até 1912.

 

Charles Bukowski

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Quando Bukowski se mudou para Nova York para se tornar escritor, ele conseguiu publicar apenas dois contos. Frustrado, resolveu beber. Por dez anos. Charles quase morreu de úlcera. Finalmente, ele se acomodou numa rotina de empregado dos correios. Por mais dez anos.

Enquanto trabalhava nos correios, já com 49 anos, a pequena editora alternativa Black Sparrow Press ofereceu-lhe um contrato. Ele aceitou e disse: “Eu tenho duas escolhas: ficar neste emprego e enlouquecer ou virar escritor e morrer de fome. Eu decidi morrer de fome.” Quando terminou seu primeiro romance, Cartas na rua, ele estava desempregado há um mês. Acabou publicando milhares de poemas, centenas de contos e seis romances. E não morreu de fome.

Cora Coralina

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Cora Coralina, considerada uma das maiores poetisas de língua portuguesa do século XX, começou a publicar seus livros aos 75 anos de idade. Apesar disso, a autora sempre escreveu poemas sobre seu cotidiano, com uma linguagem simples na forma, mas muito profunda no conteúdo. Carlos Drummond de Andrade, em 1980, enviou-lhe uma carta elogiando seu trabalho e, logo, a autora de 91 anos passou a ser conhecida em todo o Brasil.

 

Do blog da ESTANTE VIRTUAL. <3

O que é inspiração?

inspiração

O que é inspiração?

“A poesia não é inspiração pura, é trabalho; não é só ficar esperando que o santo baixe, é preciso puxar o santo pelos pés e isso dá trabalho; esse é o trabalho poético…”. Mario Quintana

in RICIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991

7 razões para você escrever todos os dias e alcançar o sucesso

Por Leo Babauta
Uma das maiores mudanças na minha vida tem sido escrever todos os dias. Por muitos anos eu era um escritor que não escrevia que regularmente. Eu sempre pensava em escrever, mas não ‘tinha tempo’. Então comecei este blog, em janeiro de 2007, e tenho escrito praticamente todos os dias desde então.

Foi uma mudança de vida.
Recomendo a escrita diária para qualquer um, não apenas escritores.
Algumas coisas que descobri com meu hábito diário:

  1. Escrever ajuda você a refletir sobre sua vida e sobre as mudanças que você está fazendo no seu dia-a-dia. Isso é incrivelmente valioso. Muitas vezes fazemos as coisas sem perceber o porquê, ou quais os efeitos que essas mudanças estão provocando em nós. A escrita esclarece seu pensamento. Pensamentos e sentimentos acontecem em lugares insuspeitos na nossa mente, e escrever nos ajuda a organizar estes mesmos pensamentos e colocá-los em uma ordem lógica.
  2. Escreva argumentativamente, com o objetivo convencer o público do seu ponto de vista – isso o faz melhor também em convencer pessoas em geral. Muitas pessoas não querem mudar a forma que pensam, especialmente quando sentem que alguém está atacando o que elas acreditam. No entanto, um raciocínio bem elaborado pode mudar este cenário.
  3. Escrever diariamente estimula sua imaginação a produzir novas ideias. Sementes de ideias estão por todos os lados: nas pessoas que falam com você, nas coisas que lê online, na música, nos filmes, na novela. Quando escreve regularmente, seus olhos estão mais atentos a estas pequenas inspirações diárias.
  4. Escrever para um público (mesmo quando se trata de uma única pessoa), ajuda a pensar a partir da perspectiva do público. É aqui que a magia começa, pois uma vez que você entre na cabeça do leitor, você começa a entender não só a cabeça do leitor mas também de seus clientes, colegas de trabalho ou de seus amigos. É que assim você adquire mais empatia e compreensão pelo mundo ao seu redor.

Os benefícios de tornar a escrita regular são, entretanto, algo sobre o que não se deve escrever, mas sim experimentar!

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Como adquirir o hábito de escrever diariamente

Existem várias maneiras de obter o hábito de escrever diariamente. Aqui está o que recomendo com base na minha experiência:

* Comprometa-se a escrever todos os dias. Muitas pessoas tentam escrever algumas vezes por semana, ou uma vez por semana. Isso é muito pouco! Não vai se tornar um hábito dessa maneira. Em vez disso, diga a si mesmo: “Eu vou escrever todos os dias, sem exceções.” E realmente assuma esse compromisso.

* Separe um tempo (isso é realmente importante). Reserve alguns minutos com essa finalidade, ou você não ‘terá’ tempo para escrever. Sugiro que faça isso de manhã, assim que puder, para que outras coisas não apareçam no caminho. Se você é uma coruja da noite, os últimos horários de vigília podem ser muito proveitosos também, desde que não esteja cansado.

* Comece pequeno. OK, você sabia que eu ia dizer isso, mas é realmente importante. Tudo que você tem a fazer é começar a escrever todos os dias – você não tem que escrever 1.000 palavras ou algo parecido. Basta começar; o ‘quanto’ não tem importância. Depois que escrever diariamente virar um hábito você pode até aumentar o tempo ou a meta, por enquanto é só começar.

* Crie um blog. Você pode escrever num diário ou num documento de texto apenas para si mesmo, mas recomendo o blog. Crie uma conta gratuita no WordPress.com ou no Tumblr. Por quê blog? Porque ele realmente ajuda você a escrever regularmente, e força você a pensar de maneiras diferentes, dependendo do seu público. Ah, e nunca deixe que o medo o impeça de fazer algo incrível.

* Desligue as distrações. O escritor é o melhor amigo da distração! Ele conhece seu apelo poderoso, mas deve dominar o desejo de segui-lo. Então, desligue tudo que não é a sua ferramenta de escrita: feche todas as guias, todos os programas de e-mail e redes sociais, e apenas escreva!

 

Isso é tudo que você precisa para começar. Com o tempo você vai aprender o poder da interação com seu público, e a buscar inspiração e lições da audiência. Mas, por agora, apenas comece!

 

Leia o artigo original no Zen Habits (em inglês)

feeling wheel

feeling_wheel

 

Para aqueles momentos em que é menos fácil definir sentimentos e emoções em palavras. A Feeling Wheel (algo que em livre tradução seria algo como como Roleta de Sentir) é uma ferramenta desenvolvida pela Dra. Gloria Willcox para auxiliar nisto. Achei interessantíssima! Vou fazer uma versão em português na tentativa de ajudar a mim e aos outros escritores a encontrar a expressão mais certa – ou mais rica – para ‘aquela’ determinada coisa.

Gostaram?

 

Para saber mais, clica aqui.

Toda a luz que não podemos ver

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“Tocar alguma coisa de verdade, ela está aprendendo – seja a casca do tronco de um plátano nos jardins; ou um besouro preso em um alfinete no Departamento de Entomologia; ou o interior primorosamente lustroso de uma concha de vieira no laboratório do dr. Geffard –, significa amá-la.”

O livro do título, de Anthony Doerr, foi o vencedor do Pulitzer de 2015.

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Terapia da Palavra

Cura pela Palavra <3

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Já pensou em poesia como remédio? Pois é. Há uma corrente que defende essa cura pela palavra, poesia para as dores do mundo.

Confira na coluna do Agualusa, aqui.

Onde?

onde (Estaria na Turquia de Orhan Pamuk. E vocês?)

Rio Invisível

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Você já conhece a série RIO INVISÍVEL? Não, pois corre lá. Histórias interessantíssimas por aí, pela rua, quiçá bem na esquina da rua onde você mora…

Corre lá no Facebook e curte a página deles, vá…

30 dos 100 melhores contos da literatura universal

 

 

FELIZ NATAL!

Um Natal cheio de livros de presente pra vocês!

(Afinal, é MUITO melhor do que ganhar meias, não é?)

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Vídeos TED

Pra conferir: alguns vídeos do TED que acreditamos que sejam interessantes pra vocês! Clica aqui!

Leitura, um exercício generoso, segundo Sartre e Beauvoir

A leitura permite a vivência dos inúmeros benefícios que são incansavelmente debatidos e associados à apreciação dos textos literários.

Texto de , via Homo Literatus. 

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Na obra O que é literatura?, Jean Paul-Sartre (1905-1980) aponta o ato de ler como o exercício que complementa a atividade iniciada pelo escritor. Segundo o filósofo existencialista francês, o objeto literário é um estranho pião que só existe quando movimentado pela leitura. “Fora daí, há apenas traços negros sobre o papel” (p. 35).

Contudo, Sartre não se refere a qualquer tipo de leitura. Para que o leitor possa ser personagem partícipe no processo de criação é indispensável que o seu debruçar-se sobre o livro seja generoso, assim como o exercício da escrita. Em outras palavras, é essencial que o leitor se permita envolver com as histórias que lê.

“(…) a leitura é um exercício de generosidade; e aquilo que o escritor pede ao leitor não é a aplicação de uma liberdade abstrata, mas a doação de toda a sua pessoa, com suas paixões, suas prevenções, suas simpatias, seu temperamento sexual, sua escala de valores (SARTRE, 1989, p. 42)”.

Simone de Beauvoir (1908-1986), em conferência intitulada Para que sirve la literatura? (edição argentina), defende, de modo semelhante a Sartre, que o leitor deve se dispor a entrar no mundo que lhe é apresentado, fazendo com que o universo do escritor torne-se o seu próprio universo. “Abdico de mi ‘yo’ em favor del que habla. Y sin embargo sigo siendo yo misma (1967, p. 72)”.

Assim, o leitor é convidado a se entregar e imergir pelos meandros do livro que carrega em mãos, mas sem esquecer que nesse mergulho o que é propriamente seu não deve ser esquecido, senão respeitado e preservado. Mesmo porque é naquilo que lhe é particular que o leitor vai descobrir artifícios importantes para embarcar e acessar o mundo de imagens e significados que no livro o aguardam.

E pode-se acrescentar a este exercício de leitura generosa, além da imersão total, um engajamento puramente imaginativo, já que para imergir no universo recortado pelo escritor, o imaginar se mostra sempre imprescindível. É como se o leitor submetesse os fundilhos da sua imaginação, como propõe Vladimir Nabokov (1899-1977) em Lolita (2011[1955]), a um pontapé capaz de lhes fazer imaginar de maneira viva e fértil, o que não só o leva ao cumprimento de uma das suas funções principais, mas também à concretização do seu papel de coautor do objeto literário.

Ler, portanto, pode (e deve, sobretudo, no mundo da literatura de ficção) ser uma atividade que vai além de um exercício de caráter meramente cognitivo. Arrisca-se ainda o palpite de que é, através desse envolvimento integral e dessa contribuição imaginativa, que a leitura permite a vivência dos inúmeros benefícios que são incansavelmente debatidos e associados à apreciação dos textos literários. Do contrário, o leitor estaria apenas, como lembra Sartre, diante de traços negros que, certamente, não o levaria a lugar algum.

Nova turma: 08 de maio!

Oficina Literária de Escrita Criativa

Para José Saramago “somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”. Clarice Lispector vai além, para ela “todo mundo que aprendeu a ler e escrever tem uma certa vontade de escrever. É legítimo: todo o ser tem algo a dizer.” Jules Renard traduziu em poucas palavras a enorme vantagem de escrever, especialmente nos dias atuais, quando a maioria fala muito, mas não quer ouvir: “escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido”.

Nova turma: 08 de maio!

Nós, do Terapia da Palavra, acreditamos que a escrita é a melhor e mais essencial maneira de interação com o mundo. A palavra é o que fica, mesmo depois do fim da nossa existência. Por isso, vamos além do ensino prático de escrita. Nossa intenção é aguçar a sua vontade de se expressar através da escrita e explorar seu potencial criativo para que sua maneira de se comunicar e interagir se torne cada vez mais atraente. Além disso, é claro, o objetivo principal desta oficina é que você encontre prazer e fluidez sempre que for escrever.

Nosso próximo módulo, que terá início no dia 08 de maio, será uma introdução à escrita criativa, baseado no livro Palavra por Palavra, da Anne Lemmot; em exercícios da Oulipo (Oficina de Literatura Potencial, iniciada na França na década de 60) e práticas já consagradas no Terapia da Palavra.

Esta oficina, constituída de 6 aulas, ao longo de 6 semanas, visa fazer com que os participantes entrem em contato com o imaginário, através de técnicas para despertar a criatividade.

Todos são capazes de melhorar seu relacionamento com as palavras, basta dar o primeiro passo!

Visite nosso site e inscreva-se. A Oficina começa na próxima quinta-feira e restam poucas vagas! www.terapiadapalavra.com.br

ABL no youtube!

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Você sabia que a ABL (Academia Brasileira de Letras) possui um canal no youtube, onde são exibidos todos os eventos que acontecem por lá?

Se você é desses que não é muito chegado a frequentar academias do corpo, mas adora uma academia do cérebro, conheça esse canal e assista a palestras, conferências, seminários, shows, recitais, mesas-redondas e muito mais.

Fique por dentro de tudo que acontece no universo literário brasileiro!

https://www.youtube.com/user/abletrasabl/videos

 

Como ganhar dinheiro vivendo de literatura no Brasil?

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Vilto Reis, no Homus Literatus

É um dos maiores questionamentos para quem tem esta paixão, de escrever, mas se preocupa em transformá-la numa fonte de renda. Talvez isso possa ser mais fácil do que você pensa. Há inúmeras formas não tão conhecidas que permitem que você não morra de fome, vivendo daquilo que você mais gosta, de literatura.

Mas no Brasil isso é possível?

Então, sabe aquele ditado de que “brasileiro não lê”? Pura mentira (até já escrevi sobre isso). Apesar de todo nosso potencial e riqueza, a primeira universidade no Brasil só surgiu a partir da vinda ao país de D. João VI, em 1808. Ou seja, pouco mais de duzentos anos de ensino superior, um tempo bem menor do que nos países desenvolvidos. Mesmo assim, anualmente o “consumo” de literatura no Brasil cresce assombrosamente.

E o mais importante, o que você quer saber, é possível viver de literatura no Brasil?

Enquanto você lê este texto e, quem sabe, está aí choramingando por ter uma paixão que não dá dinheiro, muitos profissionais em nosso país conseguem viver, e relativamente bem (isso não é uma promessa de que você ficará rico), apenas trabalhando com literatura. E mais, todos eles por conta própria, sem horários a cumprir, etc.

Falácia? Que nada, você vai conhecer quatro destes profissionais.

Histórias de quem vive de literatura no Brasil

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Eric Novello: “O que é realmente valioso para mim é ter um controle considerável do meu próprio horário”.

Para atingir este estágio é preciso superar o medo. Antes de migrar para área profissional tão sonhada, o escritor Eric Novello trabalhava como farmacêutico em uma rede de drogarias do Rio de Janeiro e estava insatisfeito. “Nas férias, pedi transferência para uma loja e me jogaram em um lugar que eu não queria. Como naquela época, para piorar, tinha se tornado obrigatório o trabalho aos sábado, decidi largar tudo e fazer curso de produção musical. Antes da inscrição, acabei recebendo um convite para trabalhar como tradutor técnico. O que me permitiu ter mais tempo dedicado à literatura e, alguns anos depois, trabalhar só com ela”, disse ele.

No começo, Eric, que tem entre seus principais livros Neon Azul (Draco, 2010) e A Sombra no Sol (Draco, 2012), não trabalhava somente escrevendo, mas seu envolvimento com o mercado literário foi lhe dando a experiência que precisava para depois publicar seus livros. Segundo ele, “tudo começou com copidesque de originais ou reedições, a maioria deles na área de literatura fantástica. Mais tarde passei a prestar serviços de leitura crítica e comecei a aceitar traduções literárias. Como autor, vocês devem imaginar, o pagamento de direitos autorais não cobre todas as contas, paga um bom lanche de vez em quando. Mas estou trabalhando nisso!”.

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Kyanja Lee: “Trabalho incansavelmente, mas adoro cada novo trabalho e projeto em que me envolvo”.

Mas o que não muda em relação a outras profissões é o preparo. Kyanja Lee trabalhou por anos nas área de marketing e administração antes de chegar ao mercado literário. Há 7 anos, desde 2007, ela atua ajudando novos autores, é parecerista (leitora crítica profissional), preparadora e revisora de originais. No entanto, para chegar até aqui ela se preparou, “fazendo cursos de especialização em literatura, oficinas literárias, participando de mesas-redondas e eventos, e lendo vários livros”.

E se o Brasil vive um dos melhores momentos no mercado editorial, a internet é uma das maiores responsáveis. Viver de literatura na web também é possível. Gustavo Magnani, de dezenove anos, vive de seu blog, o Literatortura (além de coapresentar o podcast 30:MIN, entre outros projetos). “Não é, ainda, uma renda que me deixa plenamente seguro, mas acredito que com o tempo o mercado vá entendendo o quão valiosos são os blogs para a disseminação de seus produtos”. O blog tem pouco mais de dois anos de vida, e Gustavo diz viver dele há, pelo menos, um ano e meio, mas salienta: “o dinheiro que retirei do site, quase que em sua totalidade foi investido ou guardado para lançar outros projetos ao longo desse ano”.  Em 2014, ele pretende publicar seu primeiro livro, “o que pode trazer um retorno interessante. Mas, tudo é muito especulativo ainda. Não dá para saber como as editoras se portarão, como as novidades serão recebidas, etc. Acredito, entretanto, que o ano será ainda mais produtivo do que o passado”.

Luis-Eduardo-Matta

Luiz Eduardo Matta: “O importante mesmo é escrever, fabular”.

Mas não tem nenhum escritor vivendo somente de escrever livros? Sim, tem. E não estamos falando de Paulo Coelho, Augusto Cury ou Laurentino Gomes. Luiz Eduardo Matta, que recentemente lançou A Outra Face do Desejo (Primavera editorial, 2013), escreve desde os dezessete anos e publicou seu primeiro livro aos dezoito. Antes disso, fez somente “alguns trabalhos esporádicos em paralelo à literatura como intérprete, revisor de textos e escrevendo artigos e resenhas”. Hoje seus ganhos vêm “de duas fontes: o recebimento de direitos autorais e os cachês por palestras, participações em eventos literários e visitas a escolas”, afirma ele. E isso acontece desde 1993, ou seja, há vinte anos.

 

Como estas pessoas se sentem vivendo somente de literatura?

Gustavo-Magnani

Gustavo Magnani: “me sinto muito contente com o resultado que venho obtendo”.

Kyanja Lee abre o coração: “Sinto-me feliz, produtiva. Trabalho incansavelmente, mas adoro cada novo trabalho e projeto em que me envolvo. Acabo ficando amiga dos novos autores, e é muito gratificante participar dessa etapa de transição entre um original cru, até tomar forma (ou não; às vezes o original está praticamente pronto) e ser publicado”.

Luiz Eduardo Matta se mostra satisfeito: “Muito feliz, pois é um trabalho honesto e que me gratifica muito, sobretudo por saber que muita gente está se interessando pela leitura através dos meus livros”. E mais do que pensar em dinheiro, ele afirma: “Viver de literatura, para mim, é uma consequência. O importante mesmo é escrever, fabular”.

Gustavo Magnani não difere no discurso: “Feliz. Muito feliz. E bastante realizado. Poder tirar um dinheiro aos 19 anos, da literatura, me é muito interessante”. E ainda acrescenta: “Mas, pra mim, ainda falta o gosto de poder viver de livros. De todo modo, me sinto muito contente com o resultado que venho obtendo”.

Eric Novello responde com bom humor sobre como se sente: “O que é realmente valioso para mim é ter um controle considerável do meu próprio horário. O que me permite me dedicar mais ao ofício de autor, que é o que de fato me dá prazer nessa vida. E, bem, mantenho há anos o meu despertador desligado”.

Então, se você sonha em viver de literatura no Brasil, tem aí muitos caminhos, que não são diferentes de outras profissões em suas dificuldades. Se é que você ama, vá em frente. Faça contatos, se prepare e chegue lá.

Já diria Confúcio: “Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”.

Conheça o Homo Literatus!

Você sabia que existem transtornos inspirados em personagens?

Conheça 6 transtornos com nomes inspirados em personagens da literatura

Adaptação lançada em 2009

Gustavo Magnani, no Literatortura

Como já sabemos, o conflito é o motor da trama. É aquilo que leva ao objetivo final da história. Porém, dentro de todas as obras, existem ainda inúmeros conflitos, nuances, dualidades, contradições, dilemas, reflexões, sequelas. Elementos que, por vezes, são tão marcantes a ponto de referenciar um personagem ou ser referenciado por ele.

A partir disso, a Super Interessante publicou uma matéria ressaltando 6 transtornos com nomes inspirados em personagens, que fazem questionar, em termos, quando acaba a realidade e inicia a ficção [e vice-verso].

Confira:

1. Síndrome de Alice no País das Maravilhas

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Não é preciso seguir o coelho branco para visitar o estranho País das Maravilhas – para algumas pessoas, essa ~viagem~ faz parte do dia a dia. Em 1955, o psiquiatra J. Todd descreveu esta condição neurológica que compromete os sentidos e a percepção, e tem efeitos que muito se assemelham às experiências da personagem do escritor Lewis Carroll. No livro, de 1865, Alice cresce e encolhe com ajuda de alguns cogumelos alimentos e bebidas que encontra pelo seu caminho. É assim que os afetados pela síndrome se sentem: o doente fica confuso em relação ao tamanho e forma do próprio corpo, sentindo que está aumentando ou diminuindo de tamanho, por exemplo. A confusão também se dá quanto aos formatos e dimensões dos objetos ao seu redor. A condição teria ligação com enxaquecas e com epilepsia, mas estudos que determinam suas causas ainda estão sendo conduzidos.

2. Síndrome de Peter Pan

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Em 1911, J.M. Barrie nos levou em um passeio pela Terra do Nunca, lar encantado de Capitão Gancho, de Sininho, dos Garotos Perdidos e, claro, de Peter Pan, o menino que não queria crescer. Não por acaso, é deste garoto levado que a psicologia pegou emprestado o nome para a condição descrita e popularizada pelo escritor Dr. Dan Kiley. A Síndrome de Peter Pan descreve adultos que nunca conseguiram dar adeus à infância. “Ele é um homem devido a sua idade e um garoto por seus atos”, descreve Kiley em livro publicado em 1983. Considerada uma psicopatologia, a condição ainda não foi incluída na lista de distúrbios da Organização Mundial da Saúde.

3. Síndrome de Rapunzel

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Você com certeza se lembra dela: Rapunzel é a heroína do conto escrito pelos Irmãos Grimm e publicado em 1812. Inconfundível, a jovem princesa, aprisionada em uma torre sem portas ou escadas, possui loooongos e belos cabelos dourados. Como você pode imaginar, as madeixas também são uma parte importante da rara síndrome de mesmo nome, descrita em 1968. ASíndrome de Rapunzel está ligada à tricotilomania, transtorno que torna irresistível a vontade de arrancar os próprios cabelos e muitas vezes está associado também à tricofagia: a compulsão pela ingestão destes fios. O problema se agrava porque o corpo humano não é capaz de digerir o cabelo, que pode acabar se acumulando entre o estômago e o intestino delgado. Aí, já viu: caso essa grande massa (chamada tricobezoar, em “cientifiquês”) vá crescendo até chegar até o intestino delgado, acaba o obstruindo, tornando necessária sua remoção cirúrgica.

4. Síndrome de Dorian Gray

Forever young (via)

Obcecado com sua aparência, Dorian Gray, o perturbado e narcisista personagem criado por Oscar Wilde, faz escolhas impensáveis para manter sua juventude eterna. O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1890, inspirou a descrição da condição que aflige àqueles que também não lidam nada bem com a ideia do envelhecimento. Ainda não incluída no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (a bíblia dos psiquiatras), a síndrome descrita noInternational Journal of Clinical Pharmacology and Therapeutics, em 2001, aponta uma das mais comuns “fontes da juventude eterna” procuradas pelos afligidos pela condição: cirurgias plásticas e drogas milagrosas que prometem esconder a passagem dos anos.

5. Síndrome de Huckleberry Finn

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Huck não teve uma infância feliz. O garoto, personagem de As Aventuras de Huckleberry Finn, livro escrito por Mark Twain em 1884, nunca conheceu sua mãe e era constantemente abandonado por seu pai. Ao invés de ir para escola, Huck cabulava aulas e fugia de qualquer obrigação. E, segundo estudos, este tipo de comportamento na infância pode ter impactos ao longo da vida. Vem daí o nome da Síndrome de Huckleberry Finn, que faz uma ligação entre a infância problemática e atitudes erráticas na vida adulta – como a instabilidade profissional, por exemplo. Segundo o Steadman’s Medical Eponyms, a condição seria despertada por sentimentos de rejeição.

6. Síndrome de Otelo

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Tragédia com C maiúsculo (New York Shakespeare Festival, 1964 via Theater in Park)

É verdade o que você ouviu por aí: o ciúme pode mesmo ser uma doença. O sentimento angustiante tem uma explicação clínica – é causado pelo medo da perda de um objeto amado. Até aí, tudo bem. Mas, quando o ciúme passa a gerar perturbações e sofrimentos sérios, deixa de ser considerado normal. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quem sofre do Transtorno Delirante Paranóico do tipo ciumento tem convicção, sem motivo justo ou evidente, de que está sendo traído pelo cônjuge ou parceiro. O ciúme patológico e delirante se enquadra na Síndrome de Otelo, cujo nome remete à obra escrita por William Shakespeare em 1603. Em Otelo, o Mouro de Veneza, o personagem-título é devorado pelas suspeitas infundadas de que sua esposa, Desdêmona, estaria o traindo. Se você não sabe como termina a história, uma dica: ninguém vive feliz para sempre neste conto.
Fonte: Livros e Pessoas

Poesia vira terapia para Alzheimer na terra de Shakespeare

Para combater a perda de memória que afeta 800 mil pessoas no Reino Unido, instituições especializadas e hospitais estão recorrendo à poesia

 

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Stratford upon Avon (Reino Unido) – Uma adolescente começa a ler um poema de Rudyard Kipling, rompendo o silêncio em uma sala cheia de idosos: “se puder manter a calma/quando todos à tua volta já a perderam”, quando um deles, doente de Alzheimer, completa com um murmúrio: “você será um homem, meu filho!”.

Para combater a perda de memória que afeta 800 mil pessoas no Reino Unido, instituições especializadas e hospitais estão recorrendo à poesia.

A melodia e o ritmo de versos conhecidos consegue bater na porta da memória, servem de “detonador que ativa” a palavra e as lembranças, explicou Jill Fraser. A associação “Kissing it Better”, que ela dirige, organiza leituras em asilos para idosos.

Quando os pacientes “escutam uma palavra que conseguem lembrar de um poema, eles ganham o dia”, contou Elaine Gibbs, diretora do lar para idosos Hylands, que abriga 19 velhinhos em Stratford upon Avon, terra natal de William Shakespeare, região central da Inglaterra.

Com os cabelos grisalhos presos e vestido florido, Miriam Cowley ouve com atenção uma jovem que lê o poema “À Margarida”, de William Wordsworth, um clássico nas escolas britânicas.

“Sabia o poema, mas tinha esquecido. Aprendi quando era menina”, lembrou esta antiga professora, que sofre com a perda de memória recente. “Terei belos sonhos, sonhos tranquilizadores, de margaridas e árvores”, comemorou.

Quando se chega a este centro, “todo mundo está sentado em seu canto e, de repente, você começa a ler um poema em voz alta e vê como o olhar deles se ilumina”, explicou Hannah Ciotkowski, uma voluntária de 15 anos.

“É maravilhoso quando se juntam a você para terminar um verso”, continuou Anita Wright, de 81 anos, ex-atriz da respeitada companhia Royal Shakespeare (RSC), que também lê neste lar e integra o projeto “Kissing it Better”, que conta com voluntários de 6 a 81 anos.

O ritmo da poesia “cola no nosso eu mais profundo”, assegurou Lyn Darnley, que chefia o departamento de voz e texto da RSC.

“A poesia pode afetar, recuperar lembranças, não só emoções, mas também da profundidade da linguagem”, continuou Darnley.

Anita Wright lembrou de uma experiência emocionante. Ela estava lendo um poema sobre um homem que se despedia da amada, quando uma idosa começou a chorar e lembrou da morte do namorado.

“Não tinha dito uma só palavra desde que entrou na instituição e este poema abriu as comportas porque remeteu a um episódio de sua vida”, explicou Anita, emocionada.

“A poesia não cura a senilidade”, disse Dave Bell, enfermeiro da organização Dementia UK, que luta contra o Alzheimer. “Mas tem o poder de, como a música, devolver confiança aos pacientes: eles descobrem que lembram de algo”. Além disso, “permite criar um laço entre gerações”, acrescentou.

“Quando for velha”, disse Hannah, de 15 anos, “vou querer que as pessoas venham me ver para ler poemas e cantar músicas para mim”.

Daqui, ó.

Mantra

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* trechos de livros que andam por aí (xxiii)

Êêêê…

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para mais razão, apenas para mais loucura.

O menino volta a esticar as pernas na escada. Ouvimos o apito de um barco no rio, um som melancólico. Como um pio de mau agouro. Mas não tenho por que sentir medo agora. Sou um homem sem medo, o que é bem raro aqui neste lugar.

In “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios“, de Marçal Aquino, Editora Cia. das Letras.

Escrever para combater a depressão

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Vocês já assistiram o filme “O Lado Bom da Vida”? Se não, fica aqui a nossa dica. Além de ser – tecnicamente falando – um filmaço, de impecáveis atuações, direção, edição e roteiro, aborda o tema depressão com realismo, leveza e bom humor.

O autor do livro que deu origem ao filme, Matthew Quick, conta como o processo de escrita foi fundamental para ajudá-lo a enfrentar a depressão.

Há sete anos, Matthew Quick deu um passo de coragem. Largou o emprego de professor de Literatura do ensino médio, na pequena cidade de Haddonfield, em New Jersey, para perseguir o sonho de se tornar um escritor. Sem renda e sem saber se teria sucesso, ele se mudou para o fundo da casa dos sogros e dedicou-se por três anos à arte da escrita. A experiência o fez reavaliar a vida, e as dificuldades do processo o levaram a um quadro de depressão. Foi então que Quick aprendeu a rir de si mesmo e criou Pat, protagonista do seu primeiro livro O Lado Bom da Vida, de 2008 e recentemente publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

A obra chamou a atenção de Hollywood, que a adaptou para o cinema pelas mãos do diretor David O. Russel, o mesmo de O Vencedor. A produção homônima recebeu diversas indicações nas premiações mais importantes do cinema, inclusive na categoria de melhor filme do Oscar. Com o sucesso, Quick caiu nas graças e no foco das produtoras, e seu próximo livro, The Good Luck of Right Now, que só será lançado em agosto nos Estados Unidos, já teve o direito de adaptação vendido para a DreamWorks.

Em O Lado Bom da Vida, o personagem principal luta para recuperar sua sanidade mental e desenvolve uma filosofia que o leva a sempre enxergar os aspectos positivos do dia a dia. “Pat e eu dividimos semelhanças, como o amor intenso por futebol americano e a luta contra a depressão e a ansiedade”, alega Quick. A história que contrapõe tristeza com alegria, faz o leitor se esquecer das dificuldades enfrentadas pelos personagens para se dar ao luxo de rir em várias páginas. Por essa mistura tragicômica, tanto o livro quanto o longa conquistaram o público e promoveram uma história inteligente e fácil de se relacionar.

Matthew conta que, apesar de não ter nada contra, nunca fez terapia ou tomou remédios para combater a depressão. Na opinião dele, cada um deve lidar com sua saúde mental de maneira individual e escrever foi a forma terapeutica que ele encontrou para lidar com os problemas.

Fonte: Revista Veja

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Você escreve?

http://www.youtube.com/watch?v=m3sLA6InaP4

 

 

11 Conselhos de escritores geniais para quem deseja escrever

Jorge Luis Borges

 

Dizem que a humildade é uma das características mais importantes para quem está começando a escrever. Embora faz-se necessário acreditar em si mesmo, em sua própria intuição, não há nenhum problema em ouvir um bom conselho. Principalmente se ele vier de um daqueles mestres da escrita, consolidados como referências em criação literária.

Pensando nisso, o Homo Literatus extraiu do livro As entrevistas da Paris Review, editado pela Companhia das Letras, 10 Conselhos de escritores geniais para quem deseja escrever.

***

1) Participe de pelo menos um módulo do Terapia da Palavra. Você vai conhecer gente legal, com interesses parecidos com os seus, vários críticos e autores de um tema comum. Aprendizado e diversão garantidos! :)

2) “Sempre sonhe e atire mais alto do que você sabe que pode fazer. Não se preocupe somente em ser melhor do que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que você mesmo.”
– William Faulkner

3) “O único recurso que conheço é o trabalho. A escrita tem leis de perspectiva, luz e sombra, assim como a pintura ou a música. Se você já nasceu conhecendo-as, ótimo. Se não, precisa aprendê-las. E depois precisa rearranjar as regras a fim de adaptá-las a si próprio.”
– Truman Capote

4) “Quando estou trabalhando em um livro ou em um conto, escrevo todas as manhãs, o mais cedo possível, logo depois do raiar do sol. Ninguém vem pertubá-lo, ainda está fresco, ou frio, e você pega no trabalho, e vai se aquecendo enquanto escreve.”
– Ernest Hemingway

5) “Você não precisa dele [o amor nos romances]. Você deve ter modéstia quando é um romancista.”
– Louis-Ferdinand Céline

6) “Depois descobri que as metáforas realmente boas são sempre as mesmas. Quer dizer, você compara o tempo a uma estrada, a morte ao sono, a vida ao sonho, e são essas as grandes metáforas da literatura, porque elas correspondem a algo de essencial.”
– Jorge Luis Borges

7) “Ele [o escritor] deve ser julgado pelo prazer que proporciona e pela emoção que se tem com ele.”
– Jorge Luis Borges

8) “Levo muito tempo para acordar, então de manhã escrevo cartas, reviso traduções – coisas que não me exigem muito. De tarde, vou à praia e nado por 20 minutos. Volto, como, dou uma cochilada. Sem essa cochilada não há possibilidade de criação. Das 4 às 8, trabalho para valer.”
– Manuel Puig.

9) “Se um autor estiver convencido de que é honesto e tem algo fundamental a dizer, é muito difícil que seja um mau escritor. Sente-se obrigado a passar, a transmitir suas ideias de modo claro. Por outro lado, se um escritor nada tem a dizer, mesmo que maneje as ferramentas da escrita, será um escritor menor.”
– Primo Levi

10) “Um escritor que esteja numa manhã produtiva, as frases fluindo uma após a outra, experimenta uma alegria serena e íntima. Essa alegria por si só libera, então, uma riqueza de pensamentos que pode gerar novas surpresas. Os escritores anseiam por momentos como esses, por manhãs como essas.”
– Ian McEwan

11) “Fico trabalhando num parágrafo até me sentir razoavelmente satisfeito com ele, escrevendo-o e reescrevendo-o até encontrar a forma exata, o equilíbrio exato, a música exata – até que pareça transparente e espontâneo, e não mais algo que foi “escrito”. Pode levar um dia, metade de um dia, uma hora ou três dias.”
– Paul Auster

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Gostou? Vai aplicar as dicas? Então conte para mais alguém. Compartilhe este texto.

 

(Texto original, com 10 dicas, do Homo Literatus; aqui.)

 

Os erros mais comuns da Língua Portuguesa

Erros gramaticais e ortográficos devem, por princípio, ser evitados. Alguns, no entanto, como ocorrem com maior frequência, merecem atenção redobrada. Veja os noventa e oito (antes eram cem) mais comuns do idioma e use esta relação como um roteiro para fugir deles.

1. “Mal cheiro”, “mau-humorado”. Mal opõe-se a bem e mau, a bom. Assim: mau cheiro (bom cheiro), mal-humorado (bem-humorado). Igualmente: mau humor, mal-intencionado, mau jeito, mal-estar.

2. “Fazem” cinco anos. Fazer, quando exprime tempo, é impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15 dias.

3. “Houveram” muitos acidentes. Haver, como existir, também é invariável: Houve muitos acidentes. / Havia muitas pessoas. / Deve haver muitos casos iguais.

4. “Existe” muitas esperanças. Existir, bastar, faltar, restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam idéias.

5. Para “mim” fazer. Mim não faz, porque não pode ser sujeito. Assim: Para eu fazer, para eu dizer, para eu trazer.

6. Entre “eu” e você. Depois de preposição, usa-se mim ou ti: Entre mim e você. / Entre eles e ti.

7. “Há” dez anos “atrás”. Há e atrás indicam passado na frase. Use apenas há dez anos ou dez anos atrás.

8. “Entrar dentro”. O certo: entrar em. Veja outras redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação, monopólio exclusivo, já não há mais, ganhar grátis, viúva do falecido.

9. “Venda à prazo”. Não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

10. “Porque” você foi? Sempre que estiver clara ou implícita a palavra razão, use por que separado: Por que (razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. / Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava congestionado.

11. Vai assistir “o” jogo hoje. Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

12. Preferia ir “do que” ficar. Prefere-se sempre uma coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma norma: É preferível lutar a morrer sem glória.

13. O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

14. Não há regra sem “excessão”. O certo é exceção. Veja outras grafias erradas e, entre parênteses, a forma correta: “paralizar” (paralisar), “beneficiente” (beneficente), “xuxu” (chuchu), “previlégio” (privilégio), “vultuoso” (vultoso), “cincoenta” (cinqüenta), “zuar” (zoar), “frustado” (frustrado), “calcáreo” (calcário), “advinhar” (adivinhar), “benvindo” (bem-vindo), “ascenção” (ascensão), “pixar” (pichar), “impecilho” (empecilho), “envólucro” (invólucro).

15. Quebrou “o” óculos. Concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

16. Comprei “ele” para você. Eu, tu, ele, nós, vós e eles não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você. Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandou-me.

17. Nunca “lhe” vi. Lhe substitui a ele, a eles, a você e a vocês e por isso não pode ser usado com objeto direto: Nunca o vi. / Não o convidei. / A mulher o deixou. / Ela o ama.

18. “Aluga-se” casas. O verbo concorda com o sujeito: Alugam-se casas. / Fazem-se consertos. / É assim que se evitam acidentes. / Compram-se terrenos. / Procuram-se empregados.

19. “Tratam-se” de. O verbo seguido de preposição não varia nesses casos: Trata-se dos melhores profissionais. / Precisa-se de empregados. / Apela-se para todos. / Conta-se com os amigos.

20. Chegou “em” São Paulo. Verbos de movimento exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao cinema. / Levou os filhos ao circo.

21. Atraso implicará “em” punição. Implicar é direto no sentido de acarretar, pressupor: Atraso implicará punição. / Promoção implica responsabilidade.

22. Vive “às custas” do pai. O certo: Vive à custa do pai. Use também em via de, e não “em vias de”: Espécie em via de extinção. / Trabalho em via de conclusão.

23. Todos somos “cidadões”. O plural de cidadão é cidadãos. Veja outros: caracteres (de caráter), juniores, seniores, escrivães, tabeliães, gângsteres.

24. O ingresso é “gratuíto”. A pronúncia correta é gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma: flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.

25. A última “seção” de cinema. Seção significa divisão, repartição, e sessão equivale a tempo de uma reunião, função: Seção Eleitoral, Seção de Esportes, seção de brinquedos; sessão de cinema, sessão de pancadas, sessão do Congresso.

26. Vendeu “uma” grama de ouro. Grama, peso, é palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a atenuante, a alface, a cal, etc.

27. “Porisso”. Duas palavras, por isso, como de repente e a partir de.

28. Não viu “qualquer” risco. É nenhum, e não “qualquer”, que se emprega depois de negativas: Não viu nenhum risco. / Ninguém lhe fez nenhum reparo. / Nunca promoveu nenhuma confusão.

29. A feira “inicia” amanhã. Alguma coisa se inicia, se inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.

30. Soube que os homens “feriram-se”. O que atrai o pronome: Soube que os homens se feriram. / A festa que se realizou… O mesmo ocorre com as negativas, as conjunções subordinativas e os advérbios: Não lhe diga nada. / Nenhum dos presentes se pronunciou. / Quando se falava no assunto… / Como as pessoas lhe haviam dito… / Aqui se faz, aqui se paga. / Depois o procuro.

31. O peixe tem muito “espinho”. Peixe tem espinha. Veja outras confusões desse tipo: O “fuzil” (fusível) queimou. / Casa “germinada” (geminada), “ciclo” (círculo) vicioso, “cabeçário” (cabeçalho).

32. Não sabiam “aonde” ele estava. O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

33. “Obrigado”, disse a moça. Obrigado concorda com a pessoa: “Obrigada”, disse a moça. / Obrigado pela atenção. / Muito obrigados por tudo.

34. O governo “interviu”. Intervir conjuga-se como vir. Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha, intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados: entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse, conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.

35. Ela era “meia” louca. Meio, advérbio, não varia: meio louca, meio esperta, meio amiga.

36. “Fica” você comigo. Fica é imperativo do pronome tu. Para a 3.ª pessoa, o certo é fique: Fique você comigo. / Venha pra Caixa você também. / Chegue aqui.

37. A questão não tem nada “haver” com você. A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

38. A corrida custa 5 “real”. A moeda tem plural, e regular: A corrida custa 5 reais.

39. Vou “emprestar” dele. Emprestar é ceder, e não tomar por empréstimo: Vou pegar o livro emprestado. Ou: Vou emprestar o livro (ceder) ao meu irmão. Repare nesta concordância: Pediu emprestadas duas malas.

40. Foi “taxado” de ladrão. Tachar é que significa acusar de: Foi tachado de ladrão. / Foi tachado de leviano.

41. Ele foi um dos que “chegou” antes. Um dos que faz a concordância no plural: Ele foi um dos que chegaram antes (dos que chegaram antes, ele foi um). / Era um dos que sempre vibravam com a vitória.

42. “Cerca de 18″ pessoas o saudaram. Cerca de indica arredondamento e não pode aparecer com números exatos: Cerca de 20 pessoas o saudaram.

43. Ministro nega que “é” negligente. Negar que introduz subjuntivo, assim como embora e talvez: Ministro nega que seja negligente. / O jogador negou que tivesse cometido a falta. / Ele talvez o convide para a festa. / Embora tente negar, vai deixar a empresa.

44. Tinha “chego” atrasado. “Chego” não existe. O certo: Tinha chegado atrasado.

45. Tons “pastéis” predominam. Nome de cor, quando expresso por substantivo, não varia: Tons pastel, blusas rosa, gravatas cinza, camisas creme. No caso de adjetivo, o plural é o normal: Ternos azuis, canetas pretas, fitas amarelas.

46. Lute pelo “meio-ambiente”. Meio ambiente não tem hífen, nem hora extra, ponto de vista, mala direta, pronta entrega, etc. O sinal aparece, porém, em mão-de-obra, matéria-prima, infra-estrutura, primeira-dama, vale-refeição, meio-de-campo, etc.

47. Queria namorar “com” o colega. O com não existe: Queria namorar o colega.

48. O processo deu entrada “junto ao” STF. Processo dá entrada no STF. Igualmente: O jogador foi contratado do (e não “junto ao”) Guarani. / Cresceu muito o prestígio do jornal entre os (e não “junto aos”) leitores. / Era grande a sua dívida com o (e não “junto ao”) banco. / A reclamação foi apresentada ao (e não “junto ao”) Procon.

49. As pessoas “esperavam-o”. Quando o verbo termina em m, ão ou õe, os pronomes o, a, os e as tomam a forma no, na, nos e nas: As pessoas esperavam-no. / Dão-nos, convidam-na, põe-nos, impõem-nos.

50. Vocês “fariam-lhe” um favor? Não se usa pronome átono (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes) depois de futuro do presente, futuro do pretérito (antigo condicional) ou particípio. Assim: Vocês lhe fariam (ou far-lhe-iam) um favor? / Ele se imporá pelos conhecimentos (e nunca “imporá-se”). / Os amigos nos darão (e não “darão-nos”) um presente. / Tendo-me formado (e nunca tendo “formado-me”).

51. Chegou “a” duas horas e partirá daqui “há” cinco minutos. Há indica passado e equivale a faz, enquanto a exprime distância ou tempo futuro (não pode ser substituído por faz): Chegou há (faz) duas horas e partirá daqui a (tempo futuro) cinco minutos. / O atirador estava a (distância) pouco menos de 12 metros. / Ele partiu há (faz) pouco menos de dez dias.

52. Blusa “em” seda. Usa-se de, e não em, para definir o material de que alguma coisa é feita: Blusa de seda, casa de alvenaria, medalha de prata, estátua de madeira.

53. A artista “deu à luz a” gêmeos. A expressão é dar à luz, apenas: A artista deu à luz quíntuplos. Também é errado dizer: Deu “a luz a” gêmeos.

54. Estávamos “em” quatro à mesa. O em não existe: Estávamos quatro à mesa. / Éramos seis. / Ficamos cinco na sala.

55. Sentou “na” mesa para comer. Sentar-se (ou sentar) em é sentar-se em cima de. Veja o certo: Sentou-se à mesa para comer. / Sentou ao piano, à máquina, ao computador.

56. Ficou contente “por causa que” ninguém se feriu. Embora popular, a locução não existe. Use porque: Ficou contente porque ninguém se feriu.

57. O time empatou “em” 2 a 2. A preposição é por: O time empatou por 2 a 2. Repare que ele ganha por e perde por. Da mesma forma: empate por.

58. À medida “em” que a epidemia se espalhava… O certo é: À medida que a epidemia se espalhava… Existe ainda na medida em que (tendo em vista que): É preciso cumprir as leis, na medida em que elas existem.

59. Não queria que “receiassem” a sua companhia. O i não existe: Não queria que receassem a sua companhia. Da mesma forma: passeemos, enfearam, ceaste, receeis (só existe i quando o acento cai no e que precede a terminação ear: receiem, passeias, enfeiam).

60. Eles “tem” razão. No plural, têm é assim, com acento. Tem é a forma do singular. O mesmo ocorre com vem e vêm e põe e põem: Ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm; ele põe, eles põem.

61. A moça estava ali “há” muito tempo. Haver concorda com estava. Portanto: A moça estava ali havia (fazia) muito tempo. / Ele doara sangue ao filho havia (fazia) poucos meses. / Estava sem dormir havia (fazia) três meses. (O havia se impõe quando o verbo está no imperfeito e no mais-que-perfeito do indicativo.)

62. Não “se o” diz. É errado juntar o se com os pronomes o, a, os e as. Assim, nunca use: Fazendo-se-os, não se o diz (não se diz isso), vê-se-a, etc.

63. Acordos “políticos-partidários”. Nos adjetivos compostos, só o último elemento varia: acordos político-partidários. Outros exemplos: Bandeiras verde-amarelas, medidas econômico-financeiras, partidos social-democratas.

64. Fique “tranquilo”. O u pronunciável depois de q e g e antes de e e i exige trema: Tranqüilo, conseqüência, lingüiça, agüentar, Birigüi.

65. Andou por “todo” país. Todo o (ou a) é que significa inteiro: Andou por todo o país (pelo país inteiro). / Toda a tripulação (a tripulação inteira) foi demitida. Sem o, todo quer dizer cada, qualquer: Todo homem (cada homem) é mortal. / Toda nação (qualquer nação) tem inimigos.

66. “Todos” amigos o elogiavam. No plural, todos exige os: Todos os amigos o elogiavam. / Era difícil apontar todas as contradições do texto.

67. Favoreceu “ao” time da casa. Favorecer, nesse sentido, rejeita a: Favoreceu o time da casa. / A decisão favoreceu os jogadores.

68. Ela “mesmo” arrumou a sala. Mesmo, quanto equivale a próprio, é variável: Ela mesma (própria) arrumou a sala. / As vítimas mesmas recorreram à polícia.

69. Chamei-o e “o mesmo” não atendeu. Não se pode empregar o mesmo no lugar de pronome ou substantivo: Chamei-o e ele não atendeu. / Os funcionários públicos reuniram-se hoje: amanhã o país conhecerá a decisão dos servidores (e não “dos mesmos”).

70. Vou sair “essa” noite. É este que desiga o tempo no qual se está ou objeto próximo: Esta noite, esta semana (a semana em que se está), este dia, este jornal (o jornal que estou lendo), este século (o século 20).

71. A temperatura chegou a 0 “graus”. Zero indica singular sempre: Zero grau, zero-quilômetro, zero hora.

72. A promoção veio “de encontro aos” seus desejos. Ao encontro de é que expressa uma situação favorável: A promoção veio ao encontro dos seus desejos. De encontro a significa condição contrária: A queda do nível dos salários foi de encontro às (foi contra) expectativas da categoria.

73. Comeu frango “ao invés de” peixe. Em vez de indica substituição: Comeu frango em vez de peixe. Ao invés de significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.

74. Se eu “ver” você por aí… O certo é: Se eu vir, revir, previr. Da mesma forma: Se eu vier (de vir), convier; se eu tiver (de ter), mantiver; se ele puser (de pôr), impuser; se ele fizer (de fazer), desfizer; se nós dissermos (de dizer), predissermos.

75. Ele “intermedia” a negociação. Mediar e intermediar conjugam-se como odiar: Ele intermedeia (ou medeia) a negociação. Remediar, ansiar e incendiar também seguem essa norma: Remedeiam, que eles anseiem, incendeio.

76. Ninguém se “adequa”. Não existem as formas “adequa”, “adeqüe”, etc., mas apenas aquelas em que o acento cai no a ou o: adequaram, adequou, adequasse, etc.

77. Evite que a bomba “expluda”. Explodir só tem as pessoas em que depois do d vêm e e i: Explode, explodiram, etc. Portanto, não escreva nem fale “exploda” ou “expluda”, substituindo essas formas por rebente, por exemplo. Precaver-se também não se conjuga em todas as pessoas. Assim, não existem as formas “precavejo”, “precavês”, “precavém”, “precavenho”, “precavenha”, “precaveja”, etc.

78. Governo “reavê” confiança. Equivalente: Governo recupera confiança. Reaver segue haver, mas apenas nos casos em que este tem a letra v: Reavemos, reouve, reaverá, reouvesse. Por isso, não existem “reavejo”, “reavê”, etc.

79. Disse o que “quiz”. Não existe z, mas apenas s, nas pessoas de querer e pôr: Quis, quisesse, quiseram, quiséssemos; pôs, pus, pusesse, puseram, puséssemos.

80. O homem “possue” muitos bens. O certo: O homem possui muitos bens. Verbos em uir só têm a terminação ui: Inclui, atribui, polui. Verbos em uar é que admitem ue: Continue, recue, atue, atenue.

81. A tese “onde”… Onde só pode ser usado para lugar: A casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele defende essa idéia. / O livro em que… / A faixa em que ele canta… / Na entrevista em que…

82. Já “foi comunicado” da decisão. Uma decisão é comunicada, mas ninguém “é comunicado” de alguma coisa. Assim: Já foi informado (cientificado, avisado) da decisão. Outra forma errada: A diretoria “comunicou” os empregados da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos empregados.

83. Venha “por” a roupa. Pôr, verbo, tem acento diferencial: Venha pôr a roupa. O mesmo ocorre com pôde (passado): Não pôde vir. Veja outros: fôrma, pêlo e pêlos (cabelo, cabelos), pára (verbo parar), péla (bola ou verbo pelar), pélo (verbo pelar), pólo e pólos. Perderam o sinal, no entanto: Ele, toda, ovo, selo, almoço, etc.

84. “Inflingiu” o regulamento. Infringir é que significa transgredir: Infringiu o regulamento. Infligir (e não “inflingir”) significa impor: Infligiu séria punição ao réu.

85. A modelo “pousou” o dia todo. Modelo posa (de pose). Quem pousa é ave, avião, viajante, etc. Não confunda também iminente (prestes a acontecer) com eminente (ilustre). Nem tráfico (contrabando) com tráfego (trânsito).

86. Espero que “viagem” hoje. Viagem, com g, é o substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de viajar): Espero que viajem hoje. Evite também “comprimentar” alguém: de cumprimento (saudação), só pode resultar cumprimentar. Comprimento é extensão. Igualmente: Comprido (extenso) e cumprido (concretizado).

87. O pai “sequer” foi avisado. Sequer deve ser usado com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.

88. Comprou uma TV “a cores”. Veja o correto: Comprou uma TV em cores (não se diz TV “a” preto e branco). Da mesma forma: Transmissão em cores, desenho em cores.

89. “Causou-me” estranheza as palavras. Use o certo: Causaram-me estranheza as palavras. Cuidado, pois é comum o erro de concordância quando o verbo está antes do sujeito. Veja outro exemplo: Foram iniciadas esta noite as obras (e não “foi iniciado” esta noite as obras).

90. A realidade das pessoas “podem” mudar. Cuidado: palavra próxima ao verbo não deve influir na concordância. Por isso : A realidade das pessoas pode mudar. / A troca de agressões entre os funcionários foi punida (e não “foram punidas”).

91. O fato passou “desapercebido”. Na verdade, o fato passou despercebido, não foi notado. Desapercebido significa desprevenido.

92. “Haja visto” seu empenho… A expressão é haja vista e não varia: Haja vista seu empenho. / Haja vista seus esforços. / Haja vista suas críticas.

93. A moça “que ele gosta”. Como se gosta de, o certo é: A moça de que ele gosta. Igualmente: O dinheiro de que dispõe, o filme a que assistiu (e não que assistiu), a prova de que participou, o amigo a que se referiu, etc.

94. É hora “dele” chegar. Não se deve fazer a contração da preposição com artigo ou pronome, nos casos seguidos de infinitivo: É hora de ele chegar. / Apesar de o amigo tê-lo convidado… / Depois de esses fatos terem ocorrido…

95. Vou “consigo”. Consigo só tem valor reflexivo (pensou consigo mesmo) e não pode substituir com você, com o senhor. Portanto: Vou com você, vou com o senhor. Igualmente: Isto é para o senhor (e não “para si”).

96. Já “é” 8 horas. Horas e as demais palavras que definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não “são”) 1 hora, já é meio-dia, já é meia-noite.

97. A festa começa às 8 “hrs.”. As abreviaturas do sistema métrico decimal não têm plural nem ponto. Assim: 8 h, 2 km (e não “kms.”), 5 m, 10 kg.

98. “Dado” os índices das pesquisas… A concordância é normal: Dados os índices das pesquisas… / Dado o resultado… / Dadas as suas ideias…

99. Ficou “sobre” a mira do assaltante. Sob é que significa debaixo de: Ficou sob a mira do assaltante. / Escondeu-se sob a cama. Sobre equivale a em cima de ou a respeito de: Estava sobre o telhado. / Falou sobre a inflação. E lembre-se: O animal ou o piano têm cauda e o doce, calda. Da mesma forma, alguém traz alguma coisa e alguém vai para trás.

100. “Ao meu ver”. Não existe artigo nessas expressões: A meu ver, a seu ver, a nosso ver.

 

Fonte: Nababu e Folha SP

= como nasce um texto (jorge luis borges)

Começa como uma espécie de revelação. Uso essa palavra de um modo modesto, não ambicioso. É dizer de imediato quando a inspiração ocorre, se essa idéia pode conter, no caso de um conto, o princípio e o fim. No caso de um poema, não: é uma idéia mais geral, que às vezes está contida na primeira linha. É dizer, algo me foi dado, eu intervenho rápido, e quem sabe ponha tudo a perder. No caso de um conto, por exemplo, bem, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, o objetivo. Mas tenho que descobrir, através dos meus limitados meios, o que aconteceu entre o início e o fim. E logo aparecem outros problemas pra resolver, por exemplo, se convém que seja contado em primeira pessoa ou em terceira pessoa. Então, tenho que situar a história em uma determinada época; agora, tratando-se da minha escolha e da minha conveniência, o mais cômodo é situar a história na última década do século XIX. Decido se será um conto portenho, o lugar onde se passa, por exemplo Palermo, digamos Barracas. E a data, digamos 1899, que foi o ano do meu nascimento, por exemplo. Porque, quem pode saber como falavam então aqueles suburbanos mortos? Ninguém. É dizer que eu posso agir comodamente. Ao contrário, se um escritor escolhe um tema contemporâneo, aí o leitor se converte em um inspetor e resolve: “não, em tal bairro não se fala assim, gente de tal classe não usaria esta ou aquela expressão.”

O escritor prevê tudo isso e se sente travado. Ao contrário, eu escolho uma época um pouco distante, um lugar um pouco distante, e isso me dá liberdade, e eu posso fantasiar ou inventar, inclusive. Posso mentir sem que ninguém se dê conta e sobretudo sem que eu mesmo me dê conta já que não é necessário que o escritor que escreve uma história fantástica seja crível, a não ser na realidade da fábula.

= avisos de um escritor (gabriel garcía márquez)

avisos de um escritor (gabriel garcía márquez)

1) Uma coisa é uma história comprida, e outra, uma história encompridada.
2) O final de um texto deve ser escrito quando se está no meio.
3) O autor se lembra mais de como termina um artigo do que como começa.
4) É mais fácil capturar um coelho que um leitor.
5) É necessário começar com a vontade de que aquilo que se vai escrever seja o melhor que já foi escrito, porque quase sempre essa simples vontade acrescenta alguma coisa ao texto.
6) Quando se aborrece escrevendo o leitor se aborrece lendo.
7) Não devemos obrigar o leitor a ler uma frase duas vezes.